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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Dom | 11.01.15

O Homem Que Não Queria Morrer

Carina Pereira
Este ano gostava de escrever um "livro." Coloco a palavras entre aspas porque não sou assim tão ambiciosa. Estou a fazer isto por mim, para provar que consigo. Já há tanto tempo que não escrevo histórias originais extensas que não sei até que ponto sou capaz de levar uma avante.Para já tenho uma ideia. Várias ideias. Sem estrutura, apenas com um início e fim, pois é assim que todas as minhas histórias começam. Surgem também primeiramente pontos chave, e tenho de descobrir como a eles chegar, aos poucos. Eu sempre disse que na escrita não são as margens, os portos onde atracamos o nosso barco, que são difíceis de construir e encontrar, mas é preciso saber contruir as pontes que nos levam até lá.Tenho de fazer esquemas, definir as personagens e dar sentido à estória.Deixo aqui então o prólogo, que pode vir a sofrer alterações no futuro.*"5 de Janeiro de 2014A primeira vez que o vi foi num Domingo, 14 de Janeiro de 2007. Estava sentada à minha secretária novinha em folha, de olhos bem abertos, absorvendo os cheiros que ainda não se tinham entranhado em mim, ouvindo os ruídos de uma casa que pertencia a mim apenas. Finalmente – embora confesse que com tanto receio quanto entusiasmo – tinha conseguido mudar-me para uma casa só minha. Era pequena, quase um estúdio. E um pouco mais longe do centro da cidade, o que me custaria nos transportes públicos, mas era um cantinho só para mim, longe dos gritos do meu pai quando a equipa de futebol perdia, e do choro da minha mãe pelo que daí sempre vinha.Não fugi das circunstâncias da minha vida. Ou talvez até o tenha feito, mas eu precisava de um espaço limpo, livre do fantasma de nódoas negras e sangue nas paredes. Livre de palavras feias ditas com sentimento, e de olhares que me mostrassem que eu era, e sempre seria, um erro que eles tinham cometido.Não gosto de culpar ninguém pelos meus defeitos, e sei que construí a minha vida à pressa para fugir daquilo que nunca serei capaz de deixar para trás. Ainda visito os meus pais sem regularidade, cada um em sua casa agora, mas não penso no passado. Era bom que isto fosse porque sou uma rebelde que vive no momento, mas é só porque o passado me traz pesadelos.Não tenho irmãos porque, apesar de tudo, os meus pais tiveram o discernimento de não cometer um erro similar, e também não tenho laços familiares. As visitas que faço são devidas ao meu ridículo sentido de dever, porque o sangue que nos corre nas veias não significa nada, mas é feito do mesmo.O lugar que escolhi para cementar os alicerces do meu futuro incerto é calmo, e bonito. A pequenez apenas o torna mais acolhedor, e os móveis – poucos – em segunda mão, que eu poli, envernizei e pintei com tintas dadas por um amigo, dão-lhe um aspecto tosco e por isso mesmo, mais familiar. Aqui todos se sentem aceites, sem receio de estragar o que quer que seja, porque tudo já foi quebrado, inclusivé eu.A secretária onde me sentava naquele domingo era a única coisa que eu tinha comprado, sem capricho, mas porque podia. Era larga, com gavetas à volta, e o tampo de madeira escura pintado com tinta de quardo negro; uma das gavetas trazia já giz de várias cores, para se desenhar o que bem se entendesse.Quando me ajudaram a mudar as coisas para cá a Joana e o Miguel deixaram as suas mensagens, mas o giz foi-se transformando em pó e as palavras tornaram-se quase ilegíveis, até que eu, por necessidade, as limpei com um pano húmido, apagando-as para sempre.Nem sempre me dou com companhia. Tenho jeito para conversar mas isso não quer dizer que goste. Sempre me pediram para subir a vários estrados em várias fases da minha vida, só porque o que digo sai com fluídez, mas nunca se questionaram se eu gostava. As pessoas assumem que só porque fazes algo bem imediatamente o fazes por gosto. Não é assim.A casa em frente à minha janela é branca, com muros altos, mas não o suficiente para tapar as janelas e o telhado de telha vermelha. O musgo que se vai formando nas paredes dever ser limpo regularmente, e a gradeação é feita de setas brancas. Tem um portão com a mesma forma, que deixa espreitar para o jardim, e as luzes ficam acessas toda a noite. As árvores plantadas em frente têm troncos finos e perderam já as suas folhas. Abanam ao vento como se convidassem os pássaros a fazerem ali os seus ninhos, sabendo que estão demasiado desprotegidas para os pássaros as quererem.A janela da minha sala – e cozinha – vai do chão até ao tecto, e está limpa. O pequeno jardim em frente está coberto com as folhas das àrvores da rua, que eu vou ter de varrer e apanhar eventualmente.E é quando o vejo.Não é mais do que um tremeluzir, uma forma que eu me convenço ser apenas o cansaço a apoderar-se de mim. Levanto o rosto, que até então tinha apoiado na minha mão esquerda, enviesado, e o meu coração corre no peito, sem ir a lado nenhum. Franzo o sobrolho e abano a cabeça, bocejando. Preciso de começar a deitar-me mais cedo.Mas então a alucinação toma forma e uma figura menos etérea, mais certa, surge e calca todas aquelas folhas que eu tenho de limpar. Olha em frente e o seus olhos – cuja cor não consigo ainda decifrar  – pousam sobre mim.Eu hesito. Depois levanto-me e dirigo-me para a porta. Abro-a e deixo-a escancarada, saindo para a rua.Quando chego à frente da minha janela só as folhas que o Outono roubou às árvores me cumprimentam, mostrando pegadas de alguém que parece nunca ali ter estado.Isto aconteceu duas vezes mais antes da estranha aparição decidir que encontrar-me sempre a mim tinha de ter algum significado.Agora, quase sete anos depois, consigo entender por fim porque é que eu, e mais ninguém, estava destinada a vê-lo."

Carina Pereira

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