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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Dom | 28.05.17

Audiobooks | Firoozeh Dumas E Neil Gaiman

Carina Pereira
(Preparem-se que hoje é dia de book reviews)

Como sabem, ando constantemente a ouvir audiobooks no trabalho. Este fim-de-semana, aliás, estive a fazer uma cama de paletes para o meu quarto (depois coloco aqui o tutorial) e, mais uma vez, os audiobooks foram a minha companhia. Encontrei também mais dois daily deals interessantes no Audible, que estão à minha espera quando a semana de trabalho começar.

Para simplificar as coisas, nesta publicação vou falar dos dois últimos audiobooks que ouvi, um escrito pelo Neil Gaiman, o outro por Firoozeh Dumas.

*

Neil Gaiman | The View From The Cheap Seats

Sem saber muito bem como, fiquei com a ideia de que este livro era uma espécie de biografia, mas é afinal uma colectânia de dissertações, prólogos e introduções que Neil Gaiman foi escrevendo ao longo dos anos sobre os mais variados assuntos. Embora os textos sejam, individualmente, interessantes, a leitura do livro teria sido mais fácil feita aos poucos, em vez de os ter ouvido assim de seguida, até porque a maioria deles não tem qualquer ligação entre si. Como audiobook acaba por ser um pouco monótono, embora a leitura feita pelo autor nunca desaponte.

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Firoozeh Dumas | Funny In Farsi

Adquiri este livro num dos daily deals do Audible, apenas porque as reviews eram tão boas e porque eu adoro memoirs. Não conhecia a autora, mas foi uma compra às cegas que compensou.

O livro fala sobre a vida de Firoozeh Dumas; nascida no Irão, em criança emigrou para os Estados Unidos com a família. Ao longo do audiobook Firoozeh fala das diferenças culturais, da discriminação de que é, muitas vezes, alvo, e relata episódios de família hilariantes. Aliás, todo o livro é cómico e, mesmo sem conhecer a autora, é um regalo poder conhecer assim a sua vida e os episódios que mais a marcaram.

É curioso que, geralmente, são as celebridades quem decide contar a história da sua vida, mas não me fez qualquer diferença ouvir sobre a vida de uma estranha, ainda por cima com histórias tão interessantes. Espero que haja mais livros deste género.

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Carina Pereira

Dom | 28.05.17

Stephen King | Carrie

Carina Pereira

Fiquei com curiosidade de ler mais obras de Stephen King - só tinha lido o The Shining - depois de ter adquirido o audiobook da biografia/dicas de escrita que King editou, de que falei aqui.

Não sou fã de histórias de horror, mas tenho mais facilidade em lê-las do que em vê-las (daí ter lido o The Shining sem problemas, mas continuar a recusar a ver o filme). Carrie foi o primeiro livro editado de King e conta a história de uma miúda criada por uma mãe fervorosamente religiosa, que teve de lidar com bullying por parte dos colegas durante anos. Aquando da primeira menstruação, Carrie adquire poderes telequinéticos e é aí que começa a festa. Depois de uma série de eventos em que Carrie, constantemente abusada em casa e na escola, acaba envolvida numa espiral de desentendimentos, ela usa a telequinesia para dar a quem alguma vez a magoou - física e psicologicamente - o tratamento merecido.

A escrita é excelente, com King não se limitando a narrar os acontecimentos em linha recta, mas também a criar uma série de livros e testemunhos dentro da história, mudando o tempo da narrativa várias vezes. O final foi muito satisfatório. Toda a gente que abusou de Carrie teve o que merecia e houve espaço para alguma redenção.

Tenho ainda algumas leituras a pôr em dia, mas vou voltar certamente à escrita de Stephen King.

Carina Pereira

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Seg | 22.05.17

Não-Poesias | #1

Carina Pereira

Um dia vais estar em casa

ou na rua, a fazer a tarefa mais mundana:

a lavar o cabelo

a arrumar um armário

a encher o depósito

a comprar pão

e vais franzir o sobrolho porque

um peso que dormitava em ti há meses

levantou-se

Não vais encontrar o ponto em que deixaste de

querer deixar de existir

(que não é o mesmo que querer morrer)

e respirar vai voltar a ser um acto inconsciente

O coração é como a cauda de um lagarto:

a cada regeneração perde um pouco de si

nada que deva preocuparos possuidores de um coração vasto.

Carina Pereira

in "Não-Poesias"

Seg | 15.05.17

Neil Hilborn | Our Numbered Days

Carina Pereira

Há um poema, conhecido como OCD Poem, a ser partilhado há alguns anos pelas redes sociais. Volta e meia lá o volto a encontrar. Nele, Neil Hilborn declama de forma crua sobre o amor, sobre amar com transtorno obsessivo compulsivo, sobre ser amado por alguém com transtorno obsessivo compulsivo. É uma declamação punjente e que toca em toda a gente que a ouve.

https://www.youtube.com/watch?v=vnKZ4pdSU-s

Neil Hilborn editou um livro de poesia, chamado Our Numbered Days, e todos os poemas são tão atormentados quanto aquele que o tornou conhecido. O livro é uma viagem no meio da tempestade; lê-lo é como olharmos para um mar revolto com igual medo e reverência.

Carina Pereira

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Dom | 14.05.17

Salvador

Carina Pereira

Lembro-me da minha mãe me contar que, antigamente, toda a gente lavava a loiça a correr no fim do jantar, para depois se juntarem todos em frente à televisão a ver a Eurovisão. Em criança ainda assisti a algumas edições do festival, embora não me recorde de quase nenhuma actuação Portuguesa e, aos poucos, e à medida que o festival deixou de ser um espectáculo onde Portugal singrava e muitas das actuações pareciam uma competição a ver quem era o mais estranho, acabei por deixar de de seguir o espectáculo. Conhecia, aliás, muito poucas pessoas que o faziam. O que, na geração dos meus pais, era um espectáculo que ninguém pensava sequer perder, na minha geração não passava de um encolher de ombros.

Entendi este ano que a Eurovisão ia ser um "negócio mais sério" quando vi vários artistas - e o Nuno Markl - a noticiarem no facebook os nomes que iam concorrer para levar uma canção à competição: entre eles a Márcia, o Rui Drummond, o Fernando Daniel e o Salvador Sobral. O Salvador Sobral que, logo após as primeiras semi-finais, ainda apenas contra artistas Portugueses, se tornou no nosso Salvador.

A música era toda ela Luísa Sobral. O toque de jazz, a letra simples mas sentida; há autores e músicos que têm um toque qualquer, uma impresão digital que não nos deixa enganar em relação à autoria de uma peça, e a Luísa é um deles.

Com a gentileza da voz do Salvador, uma música já de si bonita, virou algodão doce para a alma.

Ontem perdi a primeira actuação do Salvador; tão habituada que estou a ver os espectáculos Eurovisivos - not - esqueci-me do concurso e acabei por marcar um café com amigos, enquanto os meus outros amigos - Portugueses, claro está - se encontravam na casa de uns para verem o espectáculo. Quando o Salvador cantou pela primeira vez ia a caminho para me juntar a eles. Não há problema, disse-lhes eu, o Salvador vai ganhar e depois eu vejo-o a cantar no fim. E vi.

Gritámos cada doze pontos como se fossem golos, roemos as unhas quando os doze pontos iam para a Bulgária, vi a Itália - um dos meus favoritos - a ir descendo e ficar aquém das minhas apostas, mas vi, sobretudo, Portugal a levar os doze pontos uma e outra vez e, em toda a votação, a firmar-se de pedra e cal no primeiro lugar. Não saiu mais dali. Quando a canção com os segundos pontos mais altos da noite foi a Bulgária, o Salvador e a Luísa olharam um para o outro, pensando que tinham ficado em segundo lugar e nós exultámos com um resultado que já se adivinhava. A equipa Portuguesa finalmente entendeu quem eram os verdadeiros vencedores da noite e, deste lado, nós rímo-nos e abraçámo-nos e, por momentos, caminhámos dois mil quilómetros de volta ao nosso país. Nem sempre precisamos de sair do sítio para chegarmos onde o nosso coração mora.

O que mais me tocou foi a Luísa ter subido ao palco, ao lado do irmão, e a forma como o público rejubilou quando ela começou a cantar. Pois é, não temos só um artista capaz de vos fazer sentir a música, temos dois. Bem, temos muitos, naquela noite eram apenas aqueles dois.

Ser Português é muito isto. Vamos perdendo esperanças quando as coisas não nos correm de feição, queixamo-nos de tudo numa atitude pessimista e saudosista, muitas vezes com saudade de tempos que nem existiram, ou que são vistos através de uma camada de pó deixada pela passagem do tempo. Mas há sempre ali um canto do coração onde o mar nos vem beijar os pés, uma frincha por onde o fado vai entrando à socapa, um orgulho que trepa peito acima e grita sem contenção, nem dúvida "Portugal!".

Carina Pereira

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Sab | 13.05.17

Gato Preto, Gato Preto

Carina Pereira

O gato era vadio. Preto, de jeito dócil, não hesitou em aproximar-se quando ela colocou o pires com leite do lado de fora da porta. Quando acabou de beber, miou a pedir mais e enroscou-se nas suas pernas. Estava ferido numa das patas e mancava, mas parecia esquecido disso quando ela lhe trouxe o segundo pires e alguma coisa que sobrara do almoço para ele comer. Ficou por ali a tarde toda, depois desapareceu. No dia seguinte, quando Rita chegou da escola, lá estava ele outra vez. A mãe da Rita, impaciente, mandava-o embora.

- Deste comida ao gato ontem, não deste?

Não precisava de uma resposta; o tom era zangado, furioso mesmo. Olhava a Rita como se ela tivesse cometido uma atrocidade, como se dar comida e tratar de um gato ferido fosse crime maior. A Rita encolheu os ombros e esperou que a mãe fosse para dentro. O gato já tinha desaparecido de novo, afugentado pela vassoura que a mulher mais velha tinha brandido contra ele. Voltou no dia seguinte, de manhã cedo.

- Porque é que não podemos ficar com ele? Um bocado de comida e água não nos vai fazer assim tanta falta.

A mãe olhou-a como se a quisesse enxotar também com a vassoura, resmungou algo indecifrável e avisou-a que se pusesse mais comida para o gato, ia ter de se haver com ela. A Rita não quis saber do aviso; antes de lavar a loiça, enquanto a mãe tratava da roupa do pai para o dia seguinte, meteu os restos num saco, deu-lhe um nó e escondeu-o dentro da camisola. Mais tarde, quando os pais viam televisão na sala, fez de conta que precisava de encher os pneus da bicicleta e foi lá fora. Deixou a comida perto da garagem, no chão. O gato havia de encontrá-la antes da mãe dela.

Quando saiu para a escola, no dia seguinte, viu-o no quintal e sorriu, sem a mãe ver.

*

Tinha-se esquecido do trabalho de Português em casa, junto ao velho computador que era do pai, mas que o pai a deixava usar quando os trabalhos da escola assim o exigiam. Semanas de trabalho, a entrega era hoje e ela tinha-se esquecido. Contava para quarenta por cento da nota, precisava de o ir buscar. Ia faltar à aula de matemática, mas não fazia mal. Nunca faltava, era boa aluna, se o professor lhe viesse pedir justificações acerca da falta só teria de dizer a verdade, mas não ia colocar em risco a nota de Português. A professora podia não acreditar na desculpa do esquecimento, não lhe dar oportunidade de entregar um dia mais tarde, não estava para arriscar.

Caminhou até casa, o mais rápido que conseguiu e encontrou-a vazia. A mãe fazia pequenos arranjos e tinha a sua oficina no quarto extra, mas não estava lá e a porta da entrada não estava fechada à chave.

Rita recolheu o trabalho, que estava no lugar onde ela o esperara encontrar, e pôs-se de novo a caminho. Melhor assim, desta forma não teria de explicar à mãe que se tinha esquecido do trabalho, nem precisava de falar da falta a matemática, que daria um sermão de durar dias.

Olhava em frente enquanto caminhava, mas pareceu-lhe ver algo na sua periferia; uma sombra a mover-se por entre a floresta. Parou e procurou. Ali estava. Ao fundo, uma figura distinguia-se, mexendo-se por entre as árvores. Era a mãe dela. Empunhava uma pá e parecia estar a alisar a terra.

Um frio na barriga: Rita tinha a estranha sensação de que aquilo significava sarilho, soube-o quase imediatamente, mas mesmo que as suas piores suspeitas se revelassem verdadeiras, nada havia a fazer agora. O dia arrastou-se mais lentamente do que o normal. Quando regressou a casa da escola, o gato não estava lá.

Planeou tudo ao pormenor. Ao Sábado os pais iam às compras para a casa. Esperou pelo Sábado. Os pais arrancaram e ela aguardou ainda meia hora. Depois, foi à garagem buscar a pá e pôs-se a caminho. Sabia para onde se dirigir, só tinha de encontrar um pedaço de terra remexida. Quando o encontrou, começou a escavar e viu os seus receios confirmados. Voltou a cobrir a cova com terra e voltou para casa.

Às vezes, a espera é indispensável.

Deitou-se, de luz apagada, e aguardou pacientemente. Um minuto depois de ouvir a sua mãe a entrar no próprio quarto para se deitar, a gritaria começou.

Levantou-se a correr, encontrou o pai a acalmar a mãe, que se contorcia num ataque de histeria, ar aterrorizado. Na cama, espalmado como um corpo preparado para autópsia, estava o gato preto. Esquartejado, todo ele aberto, de tripas de fora.

Rita gritou - tinha encenado bem essa parte -  e foi a chorar para o quarto. A comoção na casa demorou a acalmar, as questões de quem teria feito aquilo, as suspeitas em voz baixa - quando já pensavam que Rita estava a dormir – de que algum vizinho a tivesse visto a afogar o gato e, depois, a enterrá-lo. O medo de algo sobrenatural, um castigo divino, talvez.

A Rita sorriu. Para actos atrozes, castigos atrozes.

in “Estórias Da Minha Aldeia”

Sab | 13.05.17

Como Se Eu Percebesse Alguma Coisa Disto | Auto-Estima vs Amor-Próprio

Carina Pereira
au·to·-es·ti·ma (auto- + estima)
substantivo feminino
Apreço ou valorização que uma pessoa confere a si própria, permitindo-lhe ter confiança nos próprios actos e pensamentos.
a·mor·-pró·pri·o
substantivo masculino
Respeito que cada qual tem de si mesmo, da sua dignidade.
(Dicionário Priberam de Língua Portuguesa)
 

Auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa.

Nunca tinha consultado as definições antes, foi uma conclusão a que cheguei sozinha e, de certa forma, me mudou. Ou talvez eu tenha mudado primeiro e, daí, tenha chegado a conclusão.

Há quem se orgulhe de não querer saber o que a sociedade pensa, mas não é isto já um pensamento criado a partir do que a sociedade pensa? Somos todos um molde proveniente da forma como somos criados, de aceitarmos ou repudiarmos os valores que nos passam, de nos rebelarmos ou condicionarmos. Mesmo não querer saber o que a sociedade diz é um gesto dirigido à sociedade: fugir de normas é viver, ainda assim, do ponto de partida delas. E a sociedade é cruel.

Penso que cada vez mais se apoia o amor-próprio, o aceitarmo-nos da forma que somos, mas continua-se a cair no erro de enaltecer uns para rebaixar outros. Uma publicação que é uma ode a alguma coisa, criticando outra, é tão inútil como uma publicação que apenas critique. As coisas que têm valor só precisam de si mesmas.

É-me impossível escrever isto sem que se torne pessoal, como quando escrevi a crónica  Os Destruidores De Amor Próprio, que acabou por ser publicada na plataforma Capazes e é um retrato de algo que eu, tal como todas as mulheres (e alguns homens, mesmo que sejam a excepção) sentiram de perto.

Ainda no outro dia, ao telefone, o meu pai aproveitou o embalo de uma cena que se passou com a minha sobrinha, para me dar a achega de que se ao menos eu tivesse uma auto-estima mais elevada, embora eu tenha crescido a ouvir coisas que me levaram a acreditar que eu só seria mais bonita ou mais desejável se seguisse certas normas, como usar maquilhagem ou saltos altos, ou roupas mais femininas (o que quer que isto signifique). Basicamente, precisava de duas horas para sair de casa, em vez de demorar vinte minutos a tomar banho e a vestir-me. Eu uso maquilhagem de vez em quando, mas é quando e se me apetece, depende do esforço que estou disposta a fazer naquele dia e para onde vou; admiro quem tem paciência para tratar de si todos os dias com pormenor, porque tem uma habilidade para estas coisas que eu não tenho. O curioso é que, mais uma vez, a mesma sociedade que nos diz para tratarmos de nós de forma a sermos desejáveis aos olhos dos outros é a mesma que nos chama fúteis quando o fazemos. Há ali um equilibrio qualquer mas, a linha é tão fina, que se torna difícil não ficar atrás dela ou não a ultrapassarmos completamente.

Há, no entanto, algo que escapou ao meu pai quando me disse que eu precisava de mais auto-estima, o ponto que eu não cheguei a debater porque não estou para gastar energias em coisas que nem sempre são compreendidas mas que, venha o mesmo assunto à baila e conhecendo-me, vou inevitavelmente abordar: auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa e eu sou livre de não gostar do que vejo ao espelho, de me queixar mesmo não querendo - ou não podendo - fazer nada por causa disso e, apesar das queixas, gostar de mim na mesma. Nem sempre é fácil, mas é manobrável e, com o tempo e alguma sorte, aprendemos. A mim, demorou 28 anos a perceber isso e uma série de situações que me deixaram farta de não gostar de mim mesma. É que não gostarmos de nós próprios dá um trabalho do catano.

Eu não me acho bonita, nem tenho a figura que quero (há aqui uma coisa que posso mudar, outra que não). É o que é, o que sempre foi e nós temos quase sempre uma visão reprovadora de nós mesmos. Mas, caraças, eu gosto de mim à brava. Não de uma forma egotista que não me dá espaço para gostar imenso dos outros, ou que me faz achar que sou melhor do que eles, mas na certeza de que eu mereço ser feliz, de que eu mereço ser respeitada e adorada e todas essas coisas boas que temos direito a receber quando somos bons para os outros. Criticar-me a mim própria não dá aos outros o direito de acharem que podem fazer de mim gato-sapato, ou que eu vivo à custa das migalhas que me dão porque não consigo ganhar o meu próprio pão. Tenho uma auto-estima baixa, sim, mas o meu amor-próprio conhece bem os ares rarefeitos. É disto que precisamos, de sabermos que, mesmo sem gostarmos de nós, temos o direito a que outros gostem. Que, mesmo sem olharmos com confiança ao espelho, consigamos ver se algo é, ou não, suficiente para aquilo que somos como pessoas.

Auto-estima e amor-próprio não são a mesma coisa. O amor-próprio é muito mais importante e mais fácil de encontrar, porque se cultiva desde dentro e, se a embalagem nem sempre pode ser modificada, o conteúdo pode ser moldado, sempre. Ser bondoso também se aprende e a bondade merece sempre ser amada.

Podem olhar-se ao espelho e não gostar daquilo que vêem, mas saiam de lá de cabeça erguida, a saber que ninguém pode usar o que vocês não gostam contra vós. Não sou bonita, e depois? Gosto suficientemente de quem sou para saber que não é isso que define como os outros me tratam. E tentem tratar-me mal, a ver se eu deixo.

Carina Pereira
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Sab | 13.05.17

Paula Hawkins | Into The Water

Carina Pereira

O primeiro livro de Paula Hawkins foi, de tal forma, um bestseller que é quase impossível ler o segundo livro sem o comparar com The Girl On The Train. Por outro lado, as histórias são tão distintas, que também me parece injusto fazê-lo.

Into The Water conta a história de uma pequena vila, do rio que a percorre e das mulheres que ali perderam a vida. A questão que se coloca entre murmúrios é: entraram estas mulheres nas águas turbulentas por vontade própria, ou há uma outra realidade, mais perturbadora?

A história é contada, no estilo a que Hawkins já nos habituou no primeiro livro, na primeira pessoa, do ponto de vistas das várias personagens que compõem a trama. No entanto, sendo os narradores fidedignos, cada um tem as suas teorias, as suas verdades, uma peça que encaixa em tudo o resto, acrescentando elementos importantes para entender o que realmente se passa.

A verdade que se busca na história vai sendo revelada pouco a pouco e o leitor consegue ir adivinhando quem fez o quê e porquê. É aqui que este livro se afasta um pouco do The Girl On The Train, porque a primeira obra da autora deixa-nos em espectativa até ao final, tornando difícil pousar o livro. Into The Water é igualmente bom, mas a minha ânsia em acabá-lo, em saber mais e mais, foi menos premente. Daí ser injusta a comparação, porque são ambos excelentes. Se tenho de retirar algum ponto ao Into The Water, é pelo facto de de terem ficado algumas coisas por responder, mas suponho que, se na vida nem sempre conseguimos obter todas as respostas, a autora tenha deixado essas pontas soltas intencionalmente.

Da minha parte, fiquei satisfeita com a história. Acredito que Paula Hawkins nos vai continuar a entreter com os seus enredos cheios de mistério.

Carina Pereira

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Seg | 08.05.17

Dear White People | A Série

Carina Pereira

Tenho a impressão que, pelo menos em Portugal, não se fala muito de racismo, embora a xenofobia seja discutida em várias plataformas. Ou talvez se acredite que o racismo na Europa, em contraste com o racismo nos Estados Unidos, seja mais subtil. Os nossos jornais não noticiam muitos dos crime de ódio que ocorrem do outro lado do Atlântico, mas através do Tumblr consigo acompanhar um problema que existe desde sempre na história dos Estados Unidos da América: a morte de jovens de cor às mãos da polícia.

Não me sinto muito à vontade para falar sobre este assunto porque, embora siga com atenção alguns movimentos anti-racismo, como #BlackLivesMatter, não sou uma pessoa de cor. Mas também não estaria a fazer a minha parte se não divulgasse uma série com um assunto tão premente e importante.

Todas as pessoas brancas são, quer o queiram admitir quer não, racistas. Basta pensarmos um pouco, por exemplo, naquilo que imaginamos quando lemos um livro. Quando leio uma história imagino sempre as personagens como sendo brancas, a não ser que haja alguma indicação em contrário no texto. Isso pode não ser uma forma agressiva de racismo, mas é racismo. Somos criados numa sociedade assim, por isso o melhor é aceitarmos esse facto e agirmos com vista a contrariá-lo. Há que fazer uma introspecção do porquê de nos insurgirmos tanto quando uma personagem que sempre foi representada como branca passa a ser representada por um actor negro. A nossa revolta, se assim se pode chamar, às vezes só mesmo a nossa surpresa, vai muito além do ser fiel à personagem, está sim na forma como crescemos e somos educados a ver as diferenças entre nós e a acharmos que elas são significativas, que há uma patamar a separar-nos por causa dessas diferenças. Que a personagem, por mudar de etnia, cor, seja o que for, vai ser menos válida, vai perder a sua essência. Ninguém se devia importar de o novo James Bond ser, ao contrário do que tem sido estes anos todos, negro. Até porque acho o Idris Elba um actor muito mais competente e com um estilo muito mais na mouche para fazer de James Bond do que, por exemplo, o Tom Hiddleston ou o Orlando Bloom.

A série da Netflix, Dear White People, não fala disto per se, mas fala sobre representação. Fala das notícias que não passam, na sua maioria, nos nossos jornais, sobre os miúdos desarmados que são mortos nos Estados Unidos pela polícia. É claro que vai haver sempre quem argumente que se eles foram alvejados é porque mereceram, eram thugs, roubaram alguém, ou cometeram um crime qualquer. Mais uma vez, talvez isso se deva a uma falta de informação tremenda, ou talvez seja puro racismo, a falta de informação é tantas vezes isso mesmo.

Há imensas histórias, infelizmente, que se podem pesquisar sobre este assunto; ainda me recordo do miúdo de 12 anos morto por um tipo branco; o tipo, desconfiado porque um miúdo negro ia a atravessar a rua com algo na mão, ligou para o 911, que lhe deu ordem para ficar no carro mas, apesar do miúdo não levar mais na mão do que um pacote de skittles, o tipo contrariou as ordens do 911 e atirou para matar. O miúdo morreu, o tipo branco ficou com pena suspensa até ao dia em que foi agressivo para com uma pessoa branca, levado a tribunal, e finalmente condenado. É esta a América de hoje, sempre foi esta a América. Daí que o homem branco que matou nove pessoas negras numa Igreja tenha sido escoltado de casa para a esquadra da polícia com um colete à prova de bala e a comer um hamburguer que os polícias lhe compraram pelo caminho. Isto é verdade, podem pesquisar os casos com a hashtag #BlackLivesMatter e vão encontrar tudo isto, e pior. A música 41 shots do Springsteen foi inspirada num dos incontáveis casos como este. Antes fosse ficção.

Só gostava que a série tivesse falado mais sobre estas circunstâncias; foca-se sobretudo nas diferenças raciais de um liceu nos Estados Unidos, de corrupção e do poder do dinheiro mesmo num meio tão pequeno como uma escola, das conhecidas Black Face parties que toda a gente parece achar muito normal, no facto de, a maior parte das vezes, as queixas e lutas justificadas das minorias serem descartadas como "queixas sem fundamento vindas de pessoas que se ofendem com tudo". Acho que quanto mais estivermos dispostos a entender os outros, a perceber as suas queixas e a sua revolta, quanto mais tentarmos ouvir em vez de nos tentarmos defender, mais este tipo de situações e atitudes podem mudar.

A série parece-me, com justificação, dirigida a uma comunidade que sabe bem daquilo que se está a falar, porque já o sentiu na pele, mas também com vista a acordar a comunidade branca, que não faz ideia das lutas diárias das comunidades segregadas.

Vejam. Vejam todos. Não fechem os olhos às coisas que vos incomodam, porque vos apontam o dedo e porque vos fazem reconhecer a vossa culpa. É quando deixamos de ter medo de admitir os nossos erros que podemos deixar, finalmente, de os repetir. Ganhamos todos com isso.

Carina Pereira

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Dom | 07.05.17

Frank T. Vertosick Jr | When The Air Hits Your Brain: Tales Of Neurosurgery

Carina Pereira

Por causa dos audiobooks tenho encontrado uma série de livros que, normalmente, não fariam parte da minha leitura. Tenho sempre livros de ficção em lista de espera para serem lidos, e os livros mais técnicos não me costumam entreter tanto. Tentei ler o livro que a Amy Poehler aconselha na sua biografia, chamado The Gift Of Fear, mas acabei por desistir por haver outras histórias à minha espera a que queria dar prioridade. Assim, com os audiobooks, é mais fácil conciliar tudo: vou lendo ficção e ouvindo biografias e livros técnicos.

When The Air Hist You Brain não fala tanto de neurocirurgia, mas quase que parece uma série de episódios do Dr. House (excluindo o drama romântico). A escrita e os termos técnicos que o autor escolheu para o livro são de fácil compreensão, mesmo para quem não tem qualquer conhecimento de medicina. Essencialmente, embora fale bastante de neurocirugia e dos seus procedimentos, é uma colecção das histórias que tiveram lugar durante os anos em que autor esteve activo em hospitais nos Estados Unidos e, durante uns meses, em Inglaterra. Ajuda-nos a entender um pouco como o cérebro funciona, como tudo se processa na secção de neurocirúrgica de um hospital, dá-nos uma nova perspectiva sobre a vida dos médicos e como eles lidam com a perda de pacientes, mas também com a vitória, casos que pareciam perdidos mas que, com um procedimento cirurgico, mudam a vida de alguém.

É uma narrativa bastante emocional e didáctica. Recomendo vivamente.

Carina Pereira

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Sab | 06.05.17

Vegetariana À Semana

Carina Pereira

Não, não me tornei vegetariana. Como disse na publicação que fiz aqui, onde experimentei ser ovo-lacto vegetariana por uma semana, tenho tendência a desistir de coisas que não são obrigatórias e são muito restrictas, por isso decidi ir levando isto aos poucos, sem um objectivo concreto.

Para já, tenho comido vegetariano à semana e, porque tem calhado eu ser convidada para jantar a casa de amigos, - e eu estou muito feliz com isso - tenho comido carne e peixe ao fim de semana. Assim, sem compromisso e de maneira descontraída.

Felizmente o supermercado onde vou, além das frutas e legumes e tudo o resto, tem várias opções de "carne" vegetariana, para substituir frango, panados, carne picada e até mesmo salsichas.

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Como fiz na primeira semana, decidi partilhar convosco algumas das refeições vegetarianas que tenho feito nestas duas semanas.

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Terça ao jantar fiz ravioli recheado de legumes com uma carne vegetariana condimentada. Gostei da carne mas o ravioli apenas teria chegado, daí ter comido o que sobrou no dia seguinte.

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Os meus almoços de Quarta e Quinta-feira. Quarta, um pão focaccia com tomate seco e basilico; Quinta, tortilha com molho de abacate e limão, salada, ovo estrelado e "frango" vegetariano. Este "frango" é maravilhoso e estava muito bom.  No Inverno costumo levar sopa comigo para almoçar (tenho de almoçar no carro, entre casas), mas no Verão não me apetece comer tanto sopa, opto por elvar mais saladas ou sandes rápidas.

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Na Quinta ao jantar decidi fazer lasanha com legumes e "carne picada" vegetariana. Na verdade, não precisava de ter usado a carne picada, bastavam os legumes e cogumelos, mas eu queria experimentar o sabor da carne e está aprovado. Foi o meu almoço e jantar na Sexta também e almoço hoje. Como vou jantar a casa de amigos, ainda dá amanhã para o almoço - fiz uma terrina um pouco grande. :)

Na semana passada também fiz algumas receitas deste género; experimentei uma receita de batata doce passada em ovo, pão ralado e queijo que ficou deliciosa. Fiz quinoa com cogumelos, hamburguer veggie com salda e abacate, frango com arroz e ovo. Só queria era deixar uma mensagem a quem acha que colocar fruta numa sandes com vegetais é uma boa ideia: não é! :P

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E vocês, têm receitas boas para partilhar?

Carina Pereira

Sex | 05.05.17

Nicola Yoon | Everything Everything

Carina Pereira

Nunca coloquei qualquer tipo de censura naquilo que escolho ler, desde que eu goste. Everything Everything é, tal como todos os livros de John Green e David Levithan, publicitados como Young Adult mas, tendo eu toda a colecção do The Diary Of A Wimpy Kid, - e adorando-a - não são estes rótulos que me impedem de pegar num livro e apreciá-lo. (Sim, li todos os livros de John Green também e uma boa parte dos de Levithan.)

Everything Everything é um romance simples; Madeline acabou de fazer 18 anos e passou toda a sua vida dentro de casa, à custa de uma doença que lhe debilita o sistema imunitário e transforma o mundo numa ameaça constante. Olly acaba de se mudar para a casa vizinha e, através de sinais e de palavras escritas no vidro embaciado da janela, acaba por criar uma ponte entre si e a misteriosa rapariga da casa em frente. Daí é um passo até as mensagens por messenger e e-mail começarem, assim como uma amizade peculiar.

Nicola Yoon não cai no erro de tentar transformar a sua história em algo épico ou fora do comum. Eu antecipei o ponto alto do enredo antes deste chegar, mas isso não me fez perder o interesse no livro, ou achá-lo anti-climático, antes pelo contrário; um autor de romances assina um contracto silencioso com o leitor e Yoon cumpriu com o que prometera. O livro contém aquilo que se espera dele.

É de leitura fácil, sem metáforas desnecessárias nem frases lamechas, e embora eu consiga entender porque a história é atractiva para leitores mais jovens, é um conto para qualquer idade.

Carina Pereira

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Sex | 05.05.17

Blogazine | Maio 2017

Carina Pereira

A Blogazine de Maio já está disponível para leitura nas bancas digitais!

Este mês trago-vos dois artigos; um sobre o museu de Sherlock Holmes, em Londres e outro com a habitual resenha em colaboração com a Chiado Editora.

Vão lá espreitar!

 

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Carina Pereira