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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Seg | 16.11.15

Boteco Das Tertúlias| #3 Viagens

Carina Pereira
O terceiro encontro do Boteco Das Tertúlias dá-se hoje, neste mês de Novembro de 2015. Hoje falamos de viagens.
Eu vou; agarro um desses panfletos que há de sobra em agências de sonhos e, cada dia, vejo as opções que melhor se adequam.Onde quero ir hoje, hoje que está aqui cinzento e que a chuva me tira a vontade aos passos? Quem serei e por que caminhos me perderei para me encontrar? Não sei, mas sei o transporte que prefiro: a imaginação, que é segura, confortável, primeira classe desta viagem sem planos nem rumos. Aqui não há lugar a escolhas erradas, aqui a viagem e o destino têm o mesmo gosto, e não há pressa de chegar. Quando chego, regresso de novo, mas desta vez altero a planície que me rodeia, reinvento-me a mim mesma e vou outra vez.Viajar não é para quem pode, pelo  menos quando a viagem não depende de sair de um lugar, não depende de ter a conta do banco cheia, não depende de ter tempo, disponibilidade. Viajar é o que tantas vezes fazemos de olhos fechados, de sorriso nos lábios, quando a vida nos descruza os quereres e poderes.Eu vou, com ou sem escolha, de livre vontade ou agarrada à parte de mim que não consigo mudar. Todos os dias é uma aventura nova, que ficou pendente quando o sono levou a melhor de mim, mas logo me deu liberdade de a retomar assim que acordei e vi à minha volta os mesmos sítios, as mesmas ruas, as mesmas caras, a mesma vida.As viagens que faço são secretas, e não dão para eternizar em câmaras escuras, nem para guardar entre folhas de diários. Mas também elas são vívidas, quase palpáveis. São mais eu do que o eu que eu me permito ser, neste mundo de escolhas onde não se pode voltar atrás, e onde tantas vezes a palavra sonho tem por sombra o imposível. É mais seguro ir quando se sabe que o ir não tem de ser para sempre. É mais seguro partir quando o adeus se apaga assim que se desejar, e a saudade vem de mansinho, se a chamarmos, mas vai de rompante, se a mandarmos ir. Quando os corações que deixamos para trás ainda são nossos, e não sabem que em algum momento deixaram de o ser.Certas viagens são-me dadas. Têm páginas, capa e contra-capa e cabem inteirinhas numa estante. De outras sou autor, escrevo-as porque as preciso.Viajar é o que fazemos para sairmos de nós. Gosto tanto de não estar em mim.

Carina Pereira

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