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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Qui | 27.08.15

Desconstruindo || #1 David E Golias

Carina Pereira
Há sempre dois lados para cada história e, para cada lado, uma versão. É claro que a versão que fica é sempre uma de duas: a verdadeira, ou a contada tão bem que toda a gente acredita.Agarrando assim algumas fábulas e dando-lhes a volta, vale bem a pena pensar um pouco no lado menos conhecido, no vilão derrotado que nos ensinaram ser o mau da história, quando nem lhe ouvimos um testemunho.Golias era um gigante. À partida, e contando com o poder de deturpação que as pessoas possuem, se calhar Golias era só um tipo mais alto que o costume, avançado para a época, toda a gente sabe que naquele tempo alguém com mais de metro e meio era para sair no jornal. Era um fora-de-série a quem os outros putos na escola perguntavam como estava o tempo lá em cima, às risotas.Na volta, Golias cresceu sempre a comparar-se aos miúdos da sua idade, constantemente apontando com um bocado de carvão na madeira da cabana onde vivia os centímetros a mais que tinha ganho, pedindo todos os dias, ajoelhado no chão que lhe servia também de cama, para o reverso acontecer. Para, no dia seguinte e nos dias seguintes a esse, começar a decrescer. Pedia, caso isto não fosse possível, que mandassem a maldição de que padecia a outro menino da sua idade, para que juntos pudessem brincar, e informar os outros de como o tempo estava lá em cima. Mas não, isso não acontecia. Os anos corriam e com eles só traziam marcas mais altas na madeira lá de casa, e mais graçolas maliciosas e solidão.Até que um dia, estava Golias a pensar sozinho no alto dos seus tantos metros, e alguém lhe chega, dizendo que ele tinha sido recrutado para lutar contra os Israelitas e ia tornar-se o herói dos Filistinos. É claro que Golias nem sequer pesou os prós e contras; finalmente alguém o queria, finalmente ia fazer serviço nalgum lado! Ainda por cima, segundo lhe diziam, contra um Israelita que lhe cabia no bolso.Golias aprontou-se, mediu-se outra vez na ombreira da porta, como era seu costume, vestiu o que lhe deram - porra, aquela armadura era pesada - e lá saiu todo lampeiro para enfrentar quem lhe cabia em sorte.As coisas até pareciam bem direccionadas. Conquanto não quisesse matar ninguém, Golias tinha esperança de que aquela fosse finalmente a vez da sua glória. Talvez, quem sabe, da próxima que lhe perguntassem como estava o tempo lá em cima, quisessem mesmo saber a resposta.David era franzino, e parecia simpático. Golias, reflectindo que talvez houvesse forma de resolverem aquilo amigavelmente, lá o chamou uma e outra vez, mas David nem se aproximou. Devia ser tímido. Era uma pena porque, com a sua pequena altura, Golias estava certo que também David devia ter sido alvo de chacota na escola, concerteza que se dariam bem os dois, se ao menos David deixasse de ser tão desconfiado.Qual quê? Sem aviso prévio, enquanto Golias se compunha de um espirro que lhe atirou a lança que carregava para a frente, David arma-se em bully, saca de uma fisga que trazia bem escondida, e manda uma pedra direita à sua testa, tau. A pedra nem era grande, mas aquilo doeu. Já para não falar no grito surpreendido que Golias mal conseguiu disfarçar, a entoar por todo o recinto, o que foi embaraçoso.Golias ficou ressentido.Tinha antevisto uma possível amizade e o franzino fazia-lhe aquilo. Não fosse estar ainda incomodado com o espirro - porcaria das alergias de Primavera eram tramadas - Golias ter-lhe-ia dado um sermão acerca de como a violência não resolve nada. Mas, enfim, meio tonto com o escroque que o outro lhe mandara, o peso da armadura, e possivelmente porque nem tivera tempo de acabar o pequeno-alomoço de manhã, caiu desamparado no chão. Ainda levou a mão ao bolso para tirar um bocado de pano e limpar o nariz que estava sujo por causa do espirro, - não queria dar má impressão a David - mas antes de conseguir sequer mexer-se o outro não tem mais nada, pega de uma faca daquelas sem serra, e corta-lhe o pescoço, de um lado ao outro.A última coisa a passar pela cabeça de Golias, antes de perder a consciência para sempre, foi que Deus escreve direito por linhas tortas e, depois daqueles anos todos, tinha-lhe finalmente retirado alguns centímetros.

Carina Pereira

Qui | 27.08.15

Desconstruindo || #1 David E Golias

Carina Pereira
Há sempre dois lados para cada história e, para cada lado, uma versão. É claro que a versão que fica é sempre uma de duas: a verdadeira, ou a contada tão bem que toda a gente acredita.Agarrando assim algumas fábulas e dando-lhes a volta, vale bem a pena pensar um pouco no lado menos conhecido, no vilão derrotado que nos ensinaram ser o mau da história, quando nem lhe ouvimos um testemunho.Golias era um gigante. À partida, e contando com o poder de deturpação que as pessoas possuem, se calhar Golias era só um tipo mais alto que o costume, avançado para a época, toda a gente sabe que naquele tempo alguém com mais de metro e meio era para sair no jornal. Era um fora-de-série a quem os outros putos na escola perguntavam como estava o tempo lá em cima, às risotas.Na volta, Golias cresceu sempre a comparar-se aos miúdos da sua idade, constantemente apontando com um bocado de carvão na madeira da cabana onde vivia os centímetros a mais que tinha ganho, pedindo todos os dias, ajoelhado no chão que lhe servia também de cama, para o reverso acontecer. Para, no dia seguinte e nos dias seguintes a esse, começar a decrescer. Pedia, caso isto não fosse possível, que mandassem a maldição de que padecia a outro menino da sua idade, para que juntos pudessem brincar, e informar os outros de como o tempo estava lá em cima. Mas não, isso não acontecia. Os anos corriam e com eles só traziam marcas mais altas na madeira lá de casa, e mais graçolas maliciosas e solidão.Até que um dia, estava Golias a pensar sozinho no alto dos seus tantos metros, e alguém lhe chega, dizendo que ele tinha sido recrutado para lutar contra os Israelitas e ia tornar-se o herói dos Filistinos. É claro que Golias nem sequer pesou os prós e contras; finalmente alguém o queria, finalmente ia fazer serviço nalgum lado! Ainda por cima, segundo lhe diziam, contra um Israelita que lhe cabia no bolso.Golias aprontou-se, mediu-se outra vez na ombreira da porta, como era seu costume, vestiu o que lhe deram - porra, aquela armadura era pesada - e lá saiu todo lampeiro para enfrentar quem lhe cabia em sorte.As coisas até pareciam bem direccionadas. Conquanto não quisesse matar ninguém, Golias tinha esperança de que aquela fosse finalmente a vez da sua glória. Talvez, quem sabe, da próxima que lhe perguntassem como estava o tempo lá em cima, quisessem mesmo saber a resposta.David era franzino, e parecia simpático. Golias, reflectindo que talvez houvesse forma de resolverem aquilo amigavelmente, lá o chamou uma e outra vez, mas David nem se aproximou. Devia ser tímido. Era uma pena porque, com a sua pequena altura, Golias estava certo que também David devia ter sido alvo de chacota na escola, concerteza que se dariam bem os dois, se ao menos David deixasse de ser tão desconfiado.Qual quê? Sem aviso prévio, enquanto Golias se compunha de um espirro que lhe atirou a lança que carregava para a frente, David arma-se em bully, saca de uma fisga que trazia bem escondida, e manda uma pedra direita à sua testa, tau. A pedra nem era grande, mas aquilo doeu. Já para não falar no grito surpreendido que Golias mal conseguiu disfarçar, a entoar por todo o recinto, o que foi embaraçoso.Golias ficou ressentido.Tinha antevisto uma possível amizade e o franzino fazia-lhe aquilo. Não fosse estar ainda incomodado com o espirro - porcaria das alergias de Primavera eram tramadas - Golias ter-lhe-ia dado um sermão acerca de como a violência não resolve nada. Mas, enfim, meio tonto com o escroque que o outro lhe mandara, o peso da armadura, e possivelmente porque nem tivera tempo de acabar o pequeno-alomoço de manhã, caiu desamparado no chão. Ainda levou a mão ao bolso para tirar um bocado de pano e limpar o nariz que estava sujo por causa do espirro, - não queria dar má impressão a David - mas antes de conseguir sequer mexer-se o outro não tem mais nada, pega de uma faca daquelas sem serra, e corta-lhe o pescoço, de um lado ao outro.A última coisa a passar pela cabeça de Golias, antes de perder a consciência para sempre, foi que Deus escreve direito por linhas tortas e, depois daqueles anos todos, tinha-lhe finalmente retirado alguns centímetros.

Carina Pereira

Qua | 26.08.15

Lei De Murphy #1

Carina Pereira
É eu deitar-me sobre a cama às vinte e duas e pouco só para "passar pelas brasas", e adormecer profundamente durante meia hora.Acordar estremunhada, sentar-me ao computador porque ainda é cedo, não quero dormir já, mas estar tão caída de sono que, tratando a custo de mim, lá me arrasto outra vez para a cama, só para perceber que, estando cansada como o raio, agora sim, que podia dormir à vontadinha e não só passar pelas brasas, não consigo.Demorei mais de uma hora a voltar a adormecer. Pelo menos não houve sonhos exageradamente estranhos, como é tão costume.Porque é que sabe tão melhor dormir quando não é suposto?

Carina Pereira

Qua | 26.08.15

Lei De Murphy #1

Carina Pereira
É eu deitar-me sobre a cama às vinte e duas e pouco só para "passar pelas brasas", e adormecer profundamente durante meia hora.Acordar estremunhada, sentar-me ao computador porque ainda é cedo, não quero dormir já, mas estar tão caída de sono que, tratando a custo de mim, lá me arrasto outra vez para a cama, só para perceber que, estando cansada como o raio, agora sim, que podia dormir à vontadinha e não só passar pelas brasas, não consigo.Demorei mais de uma hora a voltar a adormecer. Pelo menos não houve sonhos exageradamente estranhos, como é tão costume.Porque é que sabe tão melhor dormir quando não é suposto?

Carina Pereira

Seg | 24.08.15

A Maldição Das Estórias Inacabadas

Carina Pereira

Capítulo Um

Amsterdão - Brasília

O ruído repetitivo do telemóvel acorda-me do meu torpor. Sinto o corpo moído, de tantas horas estar enterrado no grande cadeirão de baloiço da sala, o único objecto de valor que me dei ao luxo de comprar para a casa. Estou aqui há demasiadas horas e o sol quase levanta. A vista é a mesma de sempre; embora já pouco repare na beleza dela, foi uma das razões que me levou a adquirir a habitação, há dois anos atrás. Aquele cadeirão, e a vista, e cada centímetro da casa, estão cheios das recordações que ora me assombram, ora me alumiam, dependendo do meu estado de espírito. Mas a paisagem em volta é sempre a mesma, constante no inconstante que rodeia.O telemóvel volta a tocar, zunindo enquanto se move lentamente pela mesa, impulsionado pela vibração, e eu vejo o nome a piscar no visor. Não me surpreende o nome que me fita, estava à espera dele. Releio-o antes de atender o telefone, sentindo o mesmo enlevo que me envolve quando penso nele, quando o sussurro para aquelas paredes, tão vazias de outra gente.Deslizo o dedo sobre o ecrã e encosto o vidro de encontro ao meu ouvido.- ZéDu?Mais ninguém me trata assim. Mais ninguém arrasta os meus dois nomes primeiros como se fossem um só, capitalizando o meio deste meu apelido, tomando-o como seu e seu apenas. É-o, claramente, porque mais ninguém me trata assim e, no entanto, di-lo como se só desta forma o meu nome, por instantes, lhe pertencesse por inteiro. Uma amarra feita de um neologismo que eu só aceitaria vindo dela.- Estava à espera que me ligasses.Ela sabe. É claro que sabe. Ela enche o silêncio com um suspiro e eu sinto-a mais perto.- Saiu hoje. Comprei-o. Acabei agora de o ler.Olho o relógio. Onde ela vive neste momento são duas da manhã. Ou, pelo menos, penso que sim. Por vezes ela viaja, mas raramente tenho forma de saber por onde anda, a não ser se lhe perguntasse. Nunca pergunto. Deixei de lhe perguntar ainda antes de ter começado.- Desculpa.É a primeira coisa que me lembro de lhe dizer. Talvez nem seja preciso, mas prefiro pedir perdão por excesso do que a perder para sempre por defeito.- Não tens de me pedir desculpa. Podemo-nos encontrar?Não. Claro que não. Absolutamente que não. Ainda tenho feridas a sararem, entreabertas como o coração que lhe deixei, caso ela quisesse algum dia lá entrar. Não regressar, pois ela jamais fizera aqui moradia.- Claro.É o que me sai, obviamente. As feridas nunca hão-de sarar, de qualquer forma.- Por onde andas?Rimo-nos, porque a pergunta é um eco. Formulámo-la ao mesmo tempo, o nosso paradeiro sempre uma incógnita.- Em Amsterdão. – respondo eu primeiro, mentindo, mas só por uma questão de quilómetros.Sinto que ela sorri do outro lado. Conhece-me melhor do que eu quero acreditar.- Eu estou em Lisboa.Afinal, estava mais perto do que julgava.- Eu vou aí ter. – digo-lhe.Tenho a certeza, pelo seu silêncio, que acena com a cabeça mas, lembrando que eu não a posso ver, embora adivinhe, responde-me em voz alta, uma voz sonolenta que se tenta manter de pé.Concentro-me melhor e ouço, agora que me desprendi da voz dela, um barulho indistinto, mas conhecido, ao fundo. Onde quer que ela esteja, naquele terminal de aeroporto, não é Lisboa, mas o bilhete de avião que ela certamente guarda no fundo da carteira, fundo o suficiente para não o perder, mas bem à mão para quando dele precisar, levá-la-á lá em breve. Tal como ela não lhe desfaço a mentira, aconchego-me na nossa insistência em fazer de conta que o outro não sabe.Eu acredito que, a certa altura, num rasgo do tempo que foi nosso, ela me amou. Ela faz por acreditar no mesmo. Nunca conseguiu. Foi por isso que contei a nossa história de amor que nunca foi. Porque, enquanto a contava, acreditava que talvez tivesse sido.Há teorias que têm como crença a existência de mundos paralelos. Quem sabe, num desses mundos, se existirem, eu seja um escritor a viver uma história de amor que aconteceu, e a escrever uma que nunca foi, em vez do inverso. Porque o inverso tem lugar já neste mundo.Trocamos os dois ainda banalidades, mas poucas, porque estamos enferrujados um do outro. A conversa faz barulho, como dobradiças a precisar de óleo. Suponho que para nós baste mais alguns minutos cara a cara para este ranger se desfazer, mas ainda faltam horas para isso acontecer. Por isso, ela desliga. É sempre ela que desliga. Eu aproximo-me mais da grande janela que ocupa, na verdade, toda a parede poente da sala, e olho o mar à minha frente, o céu de tons rosa escuro, quase escarlate.O peso no peito, um peso que é tão sufocante que me sente a vazio, já está tão entranhado em mim que acredito que sempre foi assim, que sempre lá esteve. Pensei que, com o tempo, acabaria por amenizar, por desaparecer, por me ser devolvido o que havia lá antes, embora nem eu saiba bem o que era que lá estava. Mas não. Ficou assim, para me lembrar que os terminais de aeroportos são locais perigosos, que as casas alugadas à beira-mar também e, principalmente, que deixar fugir o coração por entre as grades de osso que servem para o aprisionar é ainda o mais perigoso de tudo. O coração sobrevive ao contrário dos quetzais, essas aves que morrem quando se lhes rouba a liberdade. O coração quer-se bem aprisionado dentro do peito, porque a liberdade lhe sabe a solidão. A única forma de o deixar ir é encontrando outra prisão, outro peito que o queira acolher. Para o meu, é tarde demais. Agora, vagueia por aí, e não sabe o caminho de volta para casa.Sento-me ao computador e compro a viagem de regresso a Lisboa, para essa mesma tarde. Depois, começo a arrumar as poucas coisas que trouxe comigo há umas semanas atrás e deixo um recado a quem, uma vez por mês, me visita a casa e faz por ter a certeza que está tudo em ordem, até a saudade, essa tramada, me trazer até aqui de novo.Chama-se Juliane, uma brasileira feliz e alegre que de vez em quando me visita e me traz as suas receitas, para que eu me sinta mais perto de casa. Mal sabe ela que eu não tenho realmente raízes. Nunca lhe disse isto, é claro, a comida de Juliane é demasiado deliciosa para eu correr o risco de estragar a sua bondade com a minha honestidade.Juliane é bonita, doce, e quando fala parece cantar. Já me convidou para sair umas quantas vezes; rejeito sempre com uma graçola, por isso andamos aqui, neste limbo entre o não e o sim, um talvez que provavelmente se manterá até ela encontrar alguém digno do seu tempo.No entretanto, mantemo-nos os dois jovens nesta ilusão do “talvez um dia, quem sabe”.

Carina Pereira

Seg | 24.08.15

A Maldição Das Estórias Inacabadas

Carina Pereira

Capítulo Um

Amsterdão - Brasília

O ruído repetitivo do telemóvel acorda-me do meu torpor. Sinto o corpo moído, de tantas horas estar enterrado no grande cadeirão de baloiço da sala, o único objecto de valor que me dei ao luxo de comprar para a casa. Estou aqui há demasiadas horas e o sol quase levanta. A vista é a mesma de sempre; embora já pouco repare na beleza dela, foi uma das razões que me levou a adquirir a habitação, há dois anos atrás. Aquele cadeirão, e a vista, e cada centímetro da casa, estão cheios das recordações que ora me assombram, ora me alumiam, dependendo do meu estado de espírito. Mas a paisagem em volta é sempre a mesma, constante no inconstante que rodeia.O telemóvel volta a tocar, zunindo enquanto se move lentamente pela mesa, impulsionado pela vibração, e eu vejo o nome a piscar no visor. Não me surpreende o nome que me fita, estava à espera dele. Releio-o antes de atender o telefone, sentindo o mesmo enlevo que me envolve quando penso nele, quando o sussurro para aquelas paredes, tão vazias de outra gente.Deslizo o dedo sobre o ecrã e encosto o vidro de encontro ao meu ouvido.- ZéDu?Mais ninguém me trata assim. Mais ninguém arrasta os meus dois nomes primeiros como se fossem um só, capitalizando o meio deste meu apelido, tomando-o como seu e seu apenas. É-o, claramente, porque mais ninguém me trata assim e, no entanto, di-lo como se só desta forma o meu nome, por instantes, lhe pertencesse por inteiro. Uma amarra feita de um neologismo que eu só aceitaria vindo dela.- Estava à espera que me ligasses.Ela sabe. É claro que sabe. Ela enche o silêncio com um suspiro e eu sinto-a mais perto.- Saiu hoje. Comprei-o. Acabei agora de o ler.Olho o relógio. Onde ela vive neste momento são duas da manhã. Ou, pelo menos, penso que sim. Por vezes ela viaja, mas raramente tenho forma de saber por onde anda, a não ser se lhe perguntasse. Nunca pergunto. Deixei de lhe perguntar ainda antes de ter começado.- Desculpa.É a primeira coisa que me lembro de lhe dizer. Talvez nem seja preciso, mas prefiro pedir perdão por excesso do que a perder para sempre por defeito.- Não tens de me pedir desculpa. Podemo-nos encontrar?Não. Claro que não. Absolutamente que não. Ainda tenho feridas a sararem, entreabertas como o coração que lhe deixei, caso ela quisesse algum dia lá entrar. Não regressar, pois ela jamais fizera aqui moradia.- Claro.É o que me sai, obviamente. As feridas nunca hão-de sarar, de qualquer forma.- Por onde andas?Rimo-nos, porque a pergunta é um eco. Formulámo-la ao mesmo tempo, o nosso paradeiro sempre uma incógnita.- Em Amsterdão. – respondo eu primeiro, mentindo, mas só por uma questão de quilómetros.Sinto que ela sorri do outro lado. Conhece-me melhor do que eu quero acreditar.- Eu estou em Lisboa.Afinal, estava mais perto do que julgava.- Eu vou aí ter. – digo-lhe.Tenho a certeza, pelo seu silêncio, que acena com a cabeça mas, lembrando que eu não a posso ver, embora adivinhe, responde-me em voz alta, uma voz sonolenta que se tenta manter de pé.Concentro-me melhor e ouço, agora que me desprendi da voz dela, um barulho indistinto, mas conhecido, ao fundo. Onde quer que ela esteja, naquele terminal de aeroporto, não é Lisboa, mas o bilhete de avião que ela certamente guarda no fundo da carteira, fundo o suficiente para não o perder, mas bem à mão para quando dele precisar, levá-la-á lá em breve. Tal como ela não lhe desfaço a mentira, aconchego-me na nossa insistência em fazer de conta que o outro não sabe.Eu acredito que, a certa altura, num rasgo do tempo que foi nosso, ela me amou. Ela faz por acreditar no mesmo. Nunca conseguiu. Foi por isso que contei a nossa história de amor que nunca foi. Porque, enquanto a contava, acreditava que talvez tivesse sido.Há teorias que têm como crença a existência de mundos paralelos. Quem sabe, num desses mundos, se existirem, eu seja um escritor a viver uma história de amor que aconteceu, e a escrever uma que nunca foi, em vez do inverso. Porque o inverso tem lugar já neste mundo.Trocamos os dois ainda banalidades, mas poucas, porque estamos enferrujados um do outro. A conversa faz barulho, como dobradiças a precisar de óleo. Suponho que para nós baste mais alguns minutos cara a cara para este ranger se desfazer, mas ainda faltam horas para isso acontecer. Por isso, ela desliga. É sempre ela que desliga. Eu aproximo-me mais da grande janela que ocupa, na verdade, toda a parede poente da sala, e olho o mar à minha frente, o céu de tons rosa escuro, quase escarlate.O peso no peito, um peso que é tão sufocante que me sente a vazio, já está tão entranhado em mim que acredito que sempre foi assim, que sempre lá esteve. Pensei que, com o tempo, acabaria por amenizar, por desaparecer, por me ser devolvido o que havia lá antes, embora nem eu saiba bem o que era que lá estava. Mas não. Ficou assim, para me lembrar que os terminais de aeroportos são locais perigosos, que as casas alugadas à beira-mar também e, principalmente, que deixar fugir o coração por entre as grades de osso que servem para o aprisionar é ainda o mais perigoso de tudo. O coração sobrevive ao contrário dos quetzais, essas aves que morrem quando se lhes rouba a liberdade. O coração quer-se bem aprisionado dentro do peito, porque a liberdade lhe sabe a solidão. A única forma de o deixar ir é encontrando outra prisão, outro peito que o queira acolher. Para o meu, é tarde demais. Agora, vagueia por aí, e não sabe o caminho de volta para casa.Sento-me ao computador e compro a viagem de regresso a Lisboa, para essa mesma tarde. Depois, começo a arrumar as poucas coisas que trouxe comigo há umas semanas atrás e deixo um recado a quem, uma vez por mês, me visita a casa e faz por ter a certeza que está tudo em ordem, até a saudade, essa tramada, me trazer até aqui de novo.Chama-se Juliane, uma brasileira feliz e alegre que de vez em quando me visita e me traz as suas receitas, para que eu me sinta mais perto de casa. Mal sabe ela que eu não tenho realmente raízes. Nunca lhe disse isto, é claro, a comida de Juliane é demasiado deliciosa para eu correr o risco de estragar a sua bondade com a minha honestidade.Juliane é bonita, doce, e quando fala parece cantar. Já me convidou para sair umas quantas vezes; rejeito sempre com uma graçola, por isso andamos aqui, neste limbo entre o não e o sim, um talvez que provavelmente se manterá até ela encontrar alguém digno do seu tempo.No entretanto, mantemo-nos os dois jovens nesta ilusão do “talvez um dia, quem sabe”.

Carina Pereira

Seg | 24.08.15

Junta-te À Blogazine!

Carina Pereira
O recrutamento da Blogazine (revista feita por bloggers) está a todo o vapor! Se ainda queres fazer parte da equipa da revista apressa-te pois já só há as seguintes vagas:
* Men's (categoria ligada a temáticas masculinas)
* WWW (dicas sobre blogues e todas as temáticas relacionadas com internet)
* Departamento de Revisão de Textos (correção de textos a entrarem na revista)
* Departamento de Design (construção da revista)
Se tens criatividade, gosto pela escrita, sabes pensar fora da caixa e tens alguma coisa a dar ao nosso projeto, envia-nos um e-mail para blogazine.revista@gmail.com (ASSUNTO: RECRUTAMENTO) com os teus dados e um pequeno texto que nos mostre que queres fazer parte do projeto!
*
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Seg | 24.08.15

Junta-te À Blogazine!

Carina Pereira
O recrutamento da Blogazine (revista feita por bloggers) está a todo o vapor! Se ainda queres fazer parte da equipa da revista apressa-te pois já só há as seguintes vagas:
* Men's (categoria ligada a temáticas masculinas)
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* Departamento de Design (construção da revista)
Se tens criatividade, gosto pela escrita, sabes pensar fora da caixa e tens alguma coisa a dar ao nosso projeto, envia-nos um e-mail para blogazine.revista@gmail.com (ASSUNTO: RECRUTAMENTO) com os teus dados e um pequeno texto que nos mostre que queres fazer parte do projeto!
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Dom | 23.08.15

Nas Linhas Em Que Me Escrevo #9

Carina Pereira
Este é mais um caderno do tudo e nada. Aqui viveram ideias para romances, poemas, músicas e, mais tarde, rascunhos para as cartas e postais que enviei para todo o mundo, amigos de caneta que ainda mantenho.Se as cartas chegaram ao seu destino, as histórias nunca chegarão. Mas não faz mal, a vida é feita de histórias inacabadas também. Inacabadas, não. Tudo o que morre é já fim.

Carina Pereira

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Dom | 23.08.15

Nas Linhas Em Que Me Escrevo #9

Carina Pereira
Este é mais um caderno do tudo e nada. Aqui viveram ideias para romances, poemas, músicas e, mais tarde, rascunhos para as cartas e postais que enviei para todo o mundo, amigos de caneta que ainda mantenho.Se as cartas chegaram ao seu destino, as histórias nunca chegarão. Mas não faz mal, a vida é feita de histórias inacabadas também. Inacabadas, não. Tudo o que morre é já fim.

Carina Pereira

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Sab | 22.08.15

Cabelices

Carina Pereira
Todos os anos peço à minha cunhada para me cortar o cabelo mais curto - abaixo dos ombros - porque ter cabelo comprido dá uma trabalheira do caneco.Todos os anos ela me pergunta se "assim está bem" e eu, sem ter bem a certeza, digo que sim e, já com o cabelo todo arranjadinho, saio do cabeleireiro muito feliz porque, - finalmente! - acertei no comprimento ideal do cabelo para ser simples de tratar, e ainda por cima me fica bem.Todos os anos, quando lavo o cabelo no dia seguinte, me arrependo profundamente do que fiz, porque quando ao natural o cabelo não fica bem a mesma coisa, e eu não tenho a pachorra que é necessária para o esticar todos os dias.Todos os anos isto acontece, e sempre repito, "para o ano não o corto assim"!Para o ano não o corto assim.

Carina Pereira

Sab | 22.08.15

Cabelices

Carina Pereira
Todos os anos peço à minha cunhada para me cortar o cabelo mais curto - abaixo dos ombros - porque ter cabelo comprido dá uma trabalheira do caneco.Todos os anos ela me pergunta se "assim está bem" e eu, sem ter bem a certeza, digo que sim e, já com o cabelo todo arranjadinho, saio do cabeleireiro muito feliz porque, - finalmente! - acertei no comprimento ideal do cabelo para ser simples de tratar, e ainda por cima me fica bem.Todos os anos, quando lavo o cabelo no dia seguinte, me arrependo profundamente do que fiz, porque quando ao natural o cabelo não fica bem a mesma coisa, e eu não tenho a pachorra que é necessária para o esticar todos os dias.Todos os anos isto acontece, e sempre repito, "para o ano não o corto assim"!Para o ano não o corto assim.

Carina Pereira

Qui | 20.08.15

Movimento #Progargalhada

Carina Pereira
Lembram-se daquela música dos Deolinda, Movimento Perpétuo Associativo? Não? Não faz mal, fica aí o link, tem uma letra que é um mimo.Ora, agora que já ouviram a música e já estão com o espírito todo, prontos para enfrentar o mundo pelos cornos - figurativamente, que eu sou anti-touradas e, coincidentalmente, o mundo não tem cornos literais - deixo-vos aqui um desafio, com hashtag e tudo o mais!O blog Maria Das Palavras, que eu descobri há umas horas mas onde vale a pena cirandar, colocou o desafio e eu, que gosto mais de rir do que de chocolate, decidi juntar-me a esta trupe que anda a levar o riso aos ecrãs da blogosfera.O desafio não podia ser mais simples: partilhem nos vossos blogs, nas páginas do facebook e por aí além, coisas que vos façam doer a barriga de tanto rir. Aquelas coisas que nos deixam quase em lágrimas, e deixa a família a olhar para nós com descrença por partilharmos o mesmo sangue pois, ao tentarmos explicar o que tem tamanha graça, lá nos perdemos no riso de novo.Eu, toda lampeira para me juntar à festa, partilho um dos vídeos que nos últimos dias me tem feito questionar a minha própria sanidade. É tão spot on, - aceitem lá o estrangeirismo desta vez - e tão bem interpretado, que eu já ando a ficar com sotaque ainda mais do Norte, por imitar o moço o dia todo.Vamos lá todos pôr o mundo a rir, porque a bondade é de borla!#progargalhada ao poder!

Carina Pereira

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Qui | 20.08.15

Movimento #Progargalhada

Carina Pereira
Lembram-se daquela música dos Deolinda, Movimento Perpétuo Associativo? Não? Não faz mal, fica aí o link, tem uma letra que é um mimo.Ora, agora que já ouviram a música e já estão com o espírito todo, prontos para enfrentar o mundo pelos cornos - figurativamente, que eu sou anti-touradas e, coincidentalmente, o mundo não tem cornos literais - deixo-vos aqui um desafio, com hashtag e tudo o mais!O blog Maria Das Palavras, que eu descobri há umas horas mas onde vale a pena cirandar, colocou o desafio e eu, que gosto mais de rir do que de chocolate, decidi juntar-me a esta trupe que anda a levar o riso aos ecrãs da blogosfera.O desafio não podia ser mais simples: partilhem nos vossos blogs, nas páginas do facebook e por aí além, coisas que vos façam doer a barriga de tanto rir. Aquelas coisas que nos deixam quase em lágrimas, e deixa a família a olhar para nós com descrença por partilharmos o mesmo sangue pois, ao tentarmos explicar o que tem tamanha graça, lá nos perdemos no riso de novo.Eu, toda lampeira para me juntar à festa, partilho um dos vídeos que nos últimos dias me tem feito questionar a minha própria sanidade. É tão spot on, - aceitem lá o estrangeirismo desta vez - e tão bem interpretado, que eu já ando a ficar com sotaque ainda mais do Norte, por imitar o moço o dia todo.Vamos lá todos pôr o mundo a rir, porque a bondade é de borla!#progargalhada ao poder!

Carina Pereira

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Ter | 18.08.15

Isto Podia Ser Sinistro

Carina Pereira
...mas é provavelmente uma onda de coincidências.A verdade é que, desde dia 11 de Agosto, que a minha publicação referente ao livro As Mulheres Do Meu Pai, do meu adorado Agualusa, é vista por alguém. Diferentes pessoas, provavelmente, mas mesmo assim. Todos os dias. Ainda por cima, a bem dizer da verdade, nem é das melhores críticas a livros - incluindo os dele - que fiz.Não sei quem te procura, Agualusa, a ti e às mulheres de um pai que escreveste, mas espero tê-los convencido a ler-te. É essa a minha missão na vida, afinal.

Carina Pereira

Ter | 18.08.15

Isto Podia Ser Sinistro

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...mas é provavelmente uma onda de coincidências.A verdade é que, desde dia 11 de Agosto, que a minha publicação referente ao livro As Mulheres Do Meu Pai, do meu adorado Agualusa, é vista por alguém. Diferentes pessoas, provavelmente, mas mesmo assim. Todos os dias. Ainda por cima, a bem dizer da verdade, nem é das melhores críticas a livros - incluindo os dele - que fiz.Não sei quem te procura, Agualusa, a ti e às mulheres de um pai que escreveste, mas espero tê-los convencido a ler-te. É essa a minha missão na vida, afinal.

Carina Pereira

Seg | 17.08.15

Vem Fazer Parte Da Blogazine!

Carina Pereira
"A Blogazine é uma revista online feita por bloggers e está neste momento a recrutar colaboradores para as seguintes áreas:
* Saúde
* Lifestyle (ação social, vida em geral, passeios e viagens)
* Men's (temáticas masculinas)
* Variedades (quotidiano, decoração de interiores, etc.)
* WWW (dicas para blogues, internet, etc.)
* Departamento de Textos (correção de textos)
* Departamento de Design
Se tens criatividade, gosto pela escrita, sabes pensar fora da caixa e tens alguma coisa a dar ao nosso projeto, envia-nos um e-mail para blogazine.revista@gmail.com(ASSUNTO: RECRUTAMENTO) com os teus dados e um pequeno texto que nos mostre que queres fazer parte do projeto!"
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Seg | 17.08.15

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