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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Dom | 10.05.15

Cartas De Arrependimento

Carina Pereira
Nestes últimos dias, na minha feed do facebook, têm aparecido alguns textos que, além de me fazerem revirar os olhos, acabam por me chamar a atenção só com as pequenas frases seleccionadas como introdução, e lá vou eu ler tudo para poder efectivamente revirar os olhos com mais força. Não me levem a mal, eu não me sinto no direito de ridicularizar quem Gosto lhes põe e entendo que não podemos todos gostar do mesmo, mas vi tantos textos nesta categoria que hoje não resisti a mencioná-los. Fazem-me alguma comichão.São textos de arrependimento. Amororos. De pessoas que deveriam ter dado valor a quem tinham ao lado enquanto essa pessoa ainda lá queria estar. E se eu entendo que todos nós damos mais valor às coisas quando ainda – ou já – não as temos, não compreendo o descarado arrependimento de quem sabe que fez asneira.“Não devia ter passado tantas horas no trabalho.” Está bem, entendo perfeitamente que, na altura, o trabalho era o mais importante, conquanto que a pessoa também o fosse. Que, na altura, esse alguém acharia que um dia teria finalmente tempo para estar com a pessoa de quem gosta. Aceito a desculpa. Como desculpa, não como retorno ao que já acabou.“Devia ter-te dito mais vezes o quão bonita eras.” Certamente. Até consigo perceber que, às vezes, na correria da vida e com o tempo a passar e certas rotinas a instalarem-se – que se instalam sempre – alguém se possa ter esquecido de cultivar um pouco a admiração que tem pelo outro. Perfeitamente aceitável, segue-se em frente.Mas quando o texto é todo cheio – e acreditem que estes têm sido todos a abarrotar – de “desculpa-me pelas vezes que te traí,” aí então é que os meus olhos quase que fazem ali ligação directa com o cérebro, de tanto rodar nas órbitas. Ó amigo! (digo amigo porque estes textos são, regra geral, escritos na primeira pessoa de um homem) não me venhas com tretas. Há certas maldades que fazemos quando estamos numa relação de que nem sequer nos apercebemos, ou não achamos serem tão graves assim. Mas não dar valor a alguém, ter um feitio complicadíssimo mesmo para a pessoa que amamos, e trairmos essa pessoa, isso não me venham lá com coisas! Quem faz o erro sabe-o na altura, e quem não deu valor no momento, também não tem o direito de dar agora. Há uma diferença entre amar alguém – ou gostar de alguém – ou simplesmente enebriar-se no saber que essa pessoa está apegada a nós. Acredito que quem comete os erros tem noção deles logo ali, e não apenas depois, quando é tarde demais. E penso que quem faz estes erros sistematicamente não os considera tão graves assim para alguém acreditar que, na verdade, é capaz de se arrepender deles e não os repetir.Não me venham escrever cartas a pedir desculpas porque desta situação só dois resultados saem:  1) as feridas antigas reabrem-se quando estavam lá muito bem a sarar ou, mais frequentemente 2) agora já não importa. Agora a tua desculpa só me vai deixar saber que sim, tudo aquilo é verdade, sim deverias ter-me dado valor, mas agora só me apetece é rir e revirar os olhos pelo inadequado das tuas palavras. Já não preciso delas, mas obrigado por teres encontrado a palavra consideração no dicionário. Vai ser-te necessária para a vida.Quem não soube estar quando era preciso não é preciso que esteja agora. Sigam o vosso caminho. Só quer receber cartas de amor arrependido quem ainda dá valor ao que perdeu. E, pelo que vi, as cartas nunca são dirigidas a quem ainda lá está preso. As cartas são sempre dirigidas a quem encontrou o seu caminho longe de quem as escreve.Guarda as tuas desculpas, são ridículas, como todas as cartas de amor. Não preciso delas para saber o quão merecedora de amor eu sou. Foi por isso que saltei na altura certa. É por isso que hoje me escreves esta carta.É claro que há satisfação em saber-se certa. Em ver aquilo que tantas vezes ameaçámos tornar-se palpável, ali aos nossos olhos. “Um dia hás-de dar-me valor.” Mas não se iludam. Não precisam deste amor, fora de horas. Não precisam de cartas arrependidas. Não precisam de ouvir um “ainda te amo.” E é quando sabem disto tudo que são verdadeiramente livres.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

Dom | 10.05.15

Cartas De Arrependimento

Carina Pereira
Nestes últimos dias, na minha feed do facebook, têm aparecido alguns textos que, além de me fazerem revirar os olhos, acabam por me chamar a atenção só com as pequenas frases seleccionadas como introdução, e lá vou eu ler tudo para poder efectivamente revirar os olhos com mais força. Não me levem a mal, eu não me sinto no direito de ridicularizar quem Gosto lhes põe e entendo que não podemos todos gostar do mesmo, mas vi tantos textos nesta categoria que hoje não resisti a mencioná-los. Fazem-me alguma comichão.São textos de arrependimento. Amororos. De pessoas que deveriam ter dado valor a quem tinham ao lado enquanto essa pessoa ainda lá queria estar. E se eu entendo que todos nós damos mais valor às coisas quando ainda – ou já – não as temos, não compreendo o descarado arrependimento de quem sabe que fez asneira.“Não devia ter passado tantas horas no trabalho.” Está bem, entendo perfeitamente que, na altura, o trabalho era o mais importante, conquanto que a pessoa também o fosse. Que, na altura, esse alguém acharia que um dia teria finalmente tempo para estar com a pessoa de quem gosta. Aceito a desculpa. Como desculpa, não como retorno ao que já acabou.“Devia ter-te dito mais vezes o quão bonita eras.” Certamente. Até consigo perceber que, às vezes, na correria da vida e com o tempo a passar e certas rotinas a instalarem-se – que se instalam sempre – alguém se possa ter esquecido de cultivar um pouco a admiração que tem pelo outro. Perfeitamente aceitável, segue-se em frente.Mas quando o texto é todo cheio – e acreditem que estes têm sido todos a abarrotar – de “desculpa-me pelas vezes que te traí,” aí então é que os meus olhos quase que fazem ali ligação directa com o cérebro, de tanto rodar nas órbitas. Ó amigo! (digo amigo porque estes textos são, regra geral, escritos na primeira pessoa de um homem) não me venhas com tretas. Há certas maldades que fazemos quando estamos numa relação de que nem sequer nos apercebemos, ou não achamos serem tão graves assim. Mas não dar valor a alguém, ter um feitio complicadíssimo mesmo para a pessoa que amamos, e trairmos essa pessoa, isso não me venham lá com coisas! Quem faz o erro sabe-o na altura, e quem não deu valor no momento, também não tem o direito de dar agora. Há uma diferença entre amar alguém – ou gostar de alguém – ou simplesmente enebriar-se no saber que essa pessoa está apegada a nós. Acredito que quem comete os erros tem noção deles logo ali, e não apenas depois, quando é tarde demais. E penso que quem faz estes erros sistematicamente não os considera tão graves assim para alguém acreditar que, na verdade, é capaz de se arrepender deles e não os repetir.Não me venham escrever cartas a pedir desculpas porque desta situação só dois resultados saem:  1) as feridas antigas reabrem-se quando estavam lá muito bem a sarar ou, mais frequentemente 2) agora já não importa. Agora a tua desculpa só me vai deixar saber que sim, tudo aquilo é verdade, sim deverias ter-me dado valor, mas agora só me apetece é rir e revirar os olhos pelo inadequado das tuas palavras. Já não preciso delas, mas obrigado por teres encontrado a palavra consideração no dicionário. Vai ser-te necessária para a vida.Quem não soube estar quando era preciso não é preciso que esteja agora. Sigam o vosso caminho. Só quer receber cartas de amor arrependido quem ainda dá valor ao que perdeu. E, pelo que vi, as cartas nunca são dirigidas a quem ainda lá está preso. As cartas são sempre dirigidas a quem encontrou o seu caminho longe de quem as escreve.Guarda as tuas desculpas, são ridículas, como todas as cartas de amor. Não preciso delas para saber o quão merecedora de amor eu sou. Foi por isso que saltei na altura certa. É por isso que hoje me escreves esta carta.É claro que há satisfação em saber-se certa. Em ver aquilo que tantas vezes ameaçámos tornar-se palpável, ali aos nossos olhos. “Um dia hás-de dar-me valor.” Mas não se iludam. Não precisam deste amor, fora de horas. Não precisam de cartas arrependidas. Não precisam de ouvir um “ainda te amo.” E é quando sabem disto tudo que são verdadeiramente livres.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"