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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Sab | 17.01.15

Hoje Eu Não Me Recomendo

Carina Pereira
Era tão bom, não era, podermos dizer assim como quem bate baixinho ao coração, para não magoar, que hoje não nos recomendamos! Mesmo sem a voz do Rui Veloso a romancear a coisa. Entregarmos panfletos em casa e no trabalho, sem precisar de pedidos de desculpa, porque todos nós temos dias bons e menos bons. Apenas passar o papel, rodar sobre os calcanhares e dizer, com um suspiro: “Hoje não me recomendo, faz de conta que não estou cá.”  No dia seguinte, sem pesar, entregar chocolates para quem não se recomenda também agora, porque a vez chega a todos.Era bom que o povo, que padece de muitos dos mesmos males, inventasse assim uma série de códigos de conduta para situações e sentimentos tão comuns, os quais nós fazemos de conta que não podem ter parte na rotina diária. Sem exageros, claro.Se os cotovelos realmente falassem podem ter a certeza que eu arranjava o que dizer por eles também, mas há dias em que o esforço de fazer conversa, de dar respostas simples até, me assombra mesmo a mim. E então, nessas alturas raras, eu tirava um desses papéis, com um sorriso sem remorso, e lá se lia “hoje estou assim meio para o chocha, tentar de novo amanhã,” e a vida continuava e o amanhã chegava, e vinham os chocolates e a tagarelice de volta. Era tão bom.Mas nem eu nem os outros carregam consigo esse tipo de avisos e eu ergo as minhas sobrancelhas, questionando-me porque raio o empregado de mesa me serviu de forma tão rude, pergunto-me até que mal é que lhe fiz eu para ele agir assim para comigo. E no final era tão fácil: um papel de “hoje não me recomendo” com o café e o virar de costas ressentido transformava-se em gorgeta e, se calhar, mudava um dia.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=KyccxYiUF4g[/embed]

Sab | 17.01.15

Hoje Eu Não Me Recomendo

Carina Pereira
Era tão bom, não era, podermos dizer assim como quem bate baixinho ao coração, para não magoar, que hoje não nos recomendamos! Mesmo sem a voz do Rui Veloso a romancear a coisa. Entregarmos panfletos em casa e no trabalho, sem precisar de pedidos de desculpa, porque todos nós temos dias bons e menos bons. Apenas passar o papel, rodar sobre os calcanhares e dizer, com um suspiro: “Hoje não me recomendo, faz de conta que não estou cá.”  No dia seguinte, sem pesar, entregar chocolates para quem não se recomenda também agora, porque a vez chega a todos.Era bom que o povo, que padece de muitos dos mesmos males, inventasse assim uma série de códigos de conduta para situações e sentimentos tão comuns, os quais nós fazemos de conta que não podem ter parte na rotina diária. Sem exageros, claro.Se os cotovelos realmente falassem podem ter a certeza que eu arranjava o que dizer por eles também, mas há dias em que o esforço de fazer conversa, de dar respostas simples até, me assombra mesmo a mim. E então, nessas alturas raras, eu tirava um desses papéis, com um sorriso sem remorso, e lá se lia “hoje estou assim meio para o chocha, tentar de novo amanhã,” e a vida continuava e o amanhã chegava, e vinham os chocolates e a tagarelice de volta. Era tão bom.Mas nem eu nem os outros carregam consigo esse tipo de avisos e eu ergo as minhas sobrancelhas, questionando-me porque raio o empregado de mesa me serviu de forma tão rude, pergunto-me até que mal é que lhe fiz eu para ele agir assim para comigo. E no final era tão fácil: um papel de “hoje não me recomendo” com o café e o virar de costas ressentido transformava-se em gorgeta e, se calhar, mudava um dia.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

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