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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Sab | 10.01.15

Tum, tum, tum, posso entrar?

Carina Pereira
Entre os meus quinze e os meus vinte e um anos tive uma época bastante produtiva em termos de escrita. Embora sempre tenha escrito - em criança, mesmo na escola primária, escrevia já pequenas quadras - estes anos foram o pináculo das minhas "criações literárias" (estou obviamente a ser indulgente ao chamar-lhes isto.)Aos dezasseis terminei a minha primeira narrativa extensa: uma história do género novela - ao estilo Nicholas Sparks, vá - que tem uma tragicidade mais do que exagerada. Ao fim de cento e tal páginas A4 (quase) toda a gente morria. Eu sempre tive queda para o drama nas histórias que escrevia. Para o exagero também.Algum tempo mais tarde escrevi outra história que seguia a mesma linha de escrita, que já ocupou duzentas e tal páginas A4, e cuja qualidade - e drama - eram consideravelmente melhores. Sei-o porque li-a de novo há pouco tempo e não me encolhi com embaraço tanto quanto estava à espera. A história tem muitos clichés, é certo, e a sua dose de drama também, mas para quem a escreveu para aí com dezoito anos e com uma mentalidade diferente da que tenho hoje, não está assim tão má, no meu ponto de vista. Não é algo que publicaria fosse onde fosse neste momento, mas faz-me ter um bocadinho de orgulho do meu eu de há dez anos atrás.(Dez? Já passaram assim tantos?)Depois - e entre - essas escrevi outras histórias mais pequenas, mas aos vinte e um deixei mesmo de escrever. Até poemas deixaram de aparecer nas páginas dos meus blocos de notas. Nada. Niente. Nix.Há três anos atrás, quando me mudei para a Bélgica, descobri a beleza da internet quando usada em nosso favor (em Portugal os meus pais nunca instalaram internet, e por isso eu não a usava com regularidade na altura porque tinha sempre de aceder a ela fora de casa, com tempo contado.) Descobri também como usar o Tumblr e, sendo uma grande fã de Sherlock Holmes, a fanfiction arrebatou-me. Escrevi várias histórias, para todos os gostos. Fiz parte de trocas de prendas - eu escrevia, alguém desenhava para mim - e até participei num concurso de pequenas histórias (das cinco categorias eu ganhei três - nada mau!) Mas escrevia em Inglês, todas essas narrativas. Uma delas ultrapassou as 80.000 palavras. Outra tem 50.000 e teve de ser escrita num mês. É talvez a fanfic de que mais me orgulho, um policial.Histórias em Português é que pararam. Vivendo num país estrangeiro a língua mãe sabe melhor, porque sabe a casa. Por isso criei este blog para escrever somente em Português. E a verdade é que a inspiração tem surgido. Poemas, letras, pequenos contos. Vou devagar, mas vou andando.Ontem tive uma ideia para uma história mais longa, original, com personagens e situações imaginadas por mim. Escrevi menos de 1.000 palavras, mas sei onde quero levar a história, e gostava de concluí-la. Acho que tenho mais maturidade para conseguir escrever alguma coisa e gostar ainda dela daqui a alguns anos. A ver vamos.Vou deixando aqui alguns excertos da história, sem revelar muito o seu conteúdo, porque não sei se consigo fazer chegar isto a bom porto.A história chegou e pediu-me: tum, tum, tum, posso entrar? Agora vamos ver se descobre o caminho e toca o sino.

Carina Pereira

Sab | 10.01.15

Tum, tum, tum, posso entrar?

Carina Pereira
Entre os meus quinze e os meus vinte e um anos tive uma época bastante produtiva em termos de escrita. Embora sempre tenha escrito - em criança, mesmo na escola primária, escrevia já pequenas quadras - estes anos foram o pináculo das minhas "criações literárias" (estou obviamente a ser indulgente ao chamar-lhes isto.)Aos dezasseis terminei a minha primeira narrativa extensa: uma história do género novela - ao estilo Nicholas Sparks, vá - que tem uma tragicidade mais do que exagerada. Ao fim de cento e tal páginas A4 (quase) toda a gente morria. Eu sempre tive queda para o drama nas histórias que escrevia. Para o exagero também.Algum tempo mais tarde escrevi outra história que seguia a mesma linha de escrita, que já ocupou duzentas e tal páginas A4, e cuja qualidade - e drama - eram consideravelmente melhores. Sei-o porque li-a de novo há pouco tempo e não me encolhi com embaraço tanto quanto estava à espera. A história tem muitos clichés, é certo, e a sua dose de drama também, mas para quem a escreveu para aí com dezoito anos e com uma mentalidade diferente da que tenho hoje, não está assim tão má, no meu ponto de vista. Não é algo que publicaria fosse onde fosse neste momento, mas faz-me ter um bocadinho de orgulho do meu eu de há dez anos atrás.(Dez? Já passaram assim tantos?)Depois - e entre - essas escrevi outras histórias mais pequenas, mas aos vinte e um deixei mesmo de escrever. Até poemas deixaram de aparecer nas páginas dos meus blocos de notas. Nada. Niente. Nix.Há três anos atrás, quando me mudei para a Bélgica, descobri a beleza da internet quando usada em nosso favor (em Portugal os meus pais nunca instalaram internet, e por isso eu não a usava com regularidade na altura porque tinha sempre de aceder a ela fora de casa, com tempo contado.) Descobri também como usar o Tumblr e, sendo uma grande fã de Sherlock Holmes, a fanfiction arrebatou-me. Escrevi várias histórias, para todos os gostos. Fiz parte de trocas de prendas - eu escrevia, alguém desenhava para mim - e até participei num concurso de pequenas histórias (das cinco categorias eu ganhei três - nada mau!) Mas escrevia em Inglês, todas essas narrativas. Uma delas ultrapassou as 80.000 palavras. Outra tem 50.000 e teve de ser escrita num mês. É talvez a fanfic de que mais me orgulho, um policial.Histórias em Português é que pararam. Vivendo num país estrangeiro a língua mãe sabe melhor, porque sabe a casa. Por isso criei este blog para escrever somente em Português. E a verdade é que a inspiração tem surgido. Poemas, letras, pequenos contos. Vou devagar, mas vou andando.Ontem tive uma ideia para uma história mais longa, original, com personagens e situações imaginadas por mim. Escrevi menos de 1.000 palavras, mas sei onde quero levar a história, e gostava de concluí-la. Acho que tenho mais maturidade para conseguir escrever alguma coisa e gostar ainda dela daqui a alguns anos. A ver vamos.Vou deixando aqui alguns excertos da história, sem revelar muito o seu conteúdo, porque não sei se consigo fazer chegar isto a bom porto.A história chegou e pediu-me: tum, tum, tum, posso entrar? Agora vamos ver se descobre o caminho e toca o sino.

Carina Pereira

Sab | 10.01.15

Uma Manada De Ironias

Carina Pereira
O Tio Manel tinha medo de vacas. Quando as via lá tirava o chapéu para limpar o suor que lhe escorria pela testa, com tremores típicos de um receio infundado.Esta situação era, no vernáculo descontraído dele, um bocado chata, visto que a sua família tinha, ainda antes de ele ser projecto, fundado os alicerces do seu futuro na criação de gado bovino.O Tio Manel, ainda Manelinho, fugia das vacas como quem foge do perigo eminente e mesmo quando se tornou Manel e ainda lhe faltava o título de tio, as pernas continuaram a dar-lhe, como as de um boneco de corda nas mãos de um infante aborrecido. Mas os seus pais tornaram-se mais fracos, menos capazes, e o Tio Manel foi obrigado a tomar posse da única forma de subsistência da família.Ele ainda suava, ainda tremia, quando empurrava as vacas para onde as tinha de levar, ainda suspirava de alívio ao final de cada dia sem um incidente. Ele tinha as suas precauções, as suas superstições e rituais.Os rapazes novos, mais fortes e velozes do que ele, passavam a correr e aproveitavam para fazer escárnio do seu medo e da sua situação revestida de ironia. O Tio Manel não lhes ligava; estava demasiado atento ao que fazia, não fosse uma vaca desatar a correr atrás dele.O Tio Manel nem sabia de onde vinha, ou onde tinha começado, este medo; tinha-o desde que se conhecia, mas nunca sofrera nenhum acidente, ou fora alvo de nenhum ataque. Para ele este medo de vacas era a sua versão do medo do escuro: não encontrava uma justificação para o mesmo, mas também não conseguia contorná-lo.Já o tinham mandado a um terapeuta na cidade, mas o Tio Manel saíu de lá com a fobia aumentada e o saldo diminuído; a partir daí resolveu abraçar a sua sina como um herói que quer salvar os outros mesmo sem poderes especiais. E se já lhe tinham dito que coragem não era a falta de medo, mas disposição para enfrentá-lo, ao menos saber-se corajoso já lhe dava algum conforto.Passou para o outro lado da cerca de madeira com cuidado, que a cintura redonda de refeições caseiras já lhe impedia os movimentos mais arrojados, e deixou as vacas para trás, com alívio. Tinha dado por volta de cinco passos quando um restolhar desconhecido lhe gelou o sangue nas veias.Cautelosamente, com uma grande porção fantasiosa de possibilidades já formadas, lá se virou para ver de onde o barulho vinha. Ao longe, levantando poeira no terreno que pisava, trotava uma besta de cornos em cornucópia e o tio Manel podia jurar que havia algo de maquiavélico na sua expressão. Olhou em volta, sem saber para onde se virar: de um lado, as suas vacas, afastadas uma das outras em grupos de duas ou três; do outro, a sua casa, com a porta trancada e a uma distância maior do que as suas pernas poderiam fazer no tempo que precisava para fugir.Optou, para o bem ou para o mal, pelas vacas. Retrocedeu os cinco passos que tinha dado, pulou a cerca desajeitadamente e foi por um fio que a espiral de osso que dava à cabra desenfreada a ameaça eminente não lhe levou a carne traseira. Ainda lhe apanhou um bocado das calças, mas nada que não fosse remendável.Algumas horas depois, quando as tremuras do Tio Manel começavam a diminuir, a cabra desapareceu pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, mas o Tio Manel não saiu de onde estava. Sentado no terreno de grama tinha a cabeça de uma das vacas pousada sobre o seu colo, e fazia-lhe festas, tentando acalmar-se, enquanto outras tantas se passeavam ali por perto, ruminando.Nesse dia curou-se de um medo e recebeu uma carta. Um primo distante tinha morrido sem sucessão e deixava-lhe todos os seus modestos pertences: um rebanho de cabras.O Tio Manel limpou de novo o suor da testa e decidiu que afinal talve fosse melhor ser cobarde. Vendeu as cabras da herança e as vacas da família e partiu para a cidade, para se tornar terapeuta.

Carina Pereira

in "Estórias Da Minha Aldeia"

Sab | 10.01.15

Uma Manada De Ironias

Carina Pereira
O Tio Manel tinha medo de vacas. Quando as via lá tirava o chapéu para limpar o suor que lhe escorria pela testa, com tremores típicos de um receio infundado.Esta situação era, no vernáculo descontraído dele, um bocado chata, visto que a sua família tinha, ainda antes de ele ser projecto, fundado os alicerces do seu futuro na criação de gado bovino.O Tio Manel, ainda Manelinho, fugia das vacas como quem foge do perigo eminente e mesmo quando se tornou Manel e ainda lhe faltava o título de tio, as pernas continuaram a dar-lhe, como as de um boneco de corda nas mãos de um infante aborrecido. Mas os seus pais tornaram-se mais fracos, menos capazes, e o Tio Manel foi obrigado a tomar posse da única forma de subsistência da família.Ele ainda suava, ainda tremia, quando empurrava as vacas para onde as tinha de levar, ainda suspirava de alívio ao final de cada dia sem um incidente. Ele tinha as suas precauções, as suas superstições e rituais.Os rapazes novos, mais fortes e velozes do que ele, passavam a correr e aproveitavam para fazer escárnio do seu medo e da sua situação revestida de ironia. O Tio Manel não lhes ligava; estava demasiado atento ao que fazia, não fosse uma vaca desatar a correr atrás dele.O Tio Manel nem sabia de onde vinha, ou onde tinha começado, este medo; tinha-o desde que se conhecia, mas nunca sofrera nenhum acidente, ou fora alvo de nenhum ataque. Para ele este medo de vacas era a sua versão do medo do escuro: não encontrava uma justificação para o mesmo, mas também não conseguia contorná-lo.Já o tinham mandado a um terapeuta na cidade, mas o Tio Manel saíu de lá com a fobia aumentada e o saldo diminuído; a partir daí resolveu abraçar a sua sina como um herói que quer salvar os outros mesmo sem poderes especiais. E se já lhe tinham dito que coragem não era a falta de medo, mas disposição para enfrentá-lo, ao menos saber-se corajoso já lhe dava algum conforto.Passou para o outro lado da cerca de madeira com cuidado, que a cintura redonda de refeições caseiras já lhe impedia os movimentos mais arrojados, e deixou as vacas para trás, com alívio. Tinha dado por volta de cinco passos quando um restolhar desconhecido lhe gelou o sangue nas veias.Cautelosamente, com uma grande porção fantasiosa de possibilidades já formadas, lá se virou para ver de onde o barulho vinha. Ao longe, levantando poeira no terreno que pisava, trotava uma besta de cornos em cornucópia e o tio Manel podia jurar que havia algo de maquiavélico na sua expressão. Olhou em volta, sem saber para onde se virar: de um lado, as suas vacas, afastadas uma das outras em grupos de duas ou três; do outro, a sua casa, com a porta trancada e a uma distância maior do que as suas pernas poderiam fazer no tempo que precisava para fugir.Optou, para o bem ou para o mal, pelas vacas. Retrocedeu os cinco passos que tinha dado, pulou a cerca desajeitadamente e foi por um fio que a espiral de osso que dava à cabra desenfreada a ameaça eminente não lhe levou a carne traseira. Ainda lhe apanhou um bocado das calças, mas nada que não fosse remendável.Algumas horas depois, quando as tremuras do Tio Manel começavam a diminuir, a cabra desapareceu pelo mesmo caminho por onde tinha vindo, mas o Tio Manel não saiu de onde estava. Sentado no terreno de grama tinha a cabeça de uma das vacas pousada sobre o seu colo, e fazia-lhe festas, tentando acalmar-se, enquanto outras tantas se passeavam ali por perto, ruminando.Nesse dia curou-se de um medo e recebeu uma carta. Um primo distante tinha morrido sem sucessão e deixava-lhe todos os seus modestos pertences: um rebanho de cabras.O Tio Manel limpou de novo o suor da testa e decidiu que afinal talve fosse melhor ser cobarde. Vendeu as cabras da herança e as vacas da família e partiu para a cidade, para se tornar terapeuta.

Carina Pereira

in "Estórias Da Minha Aldeia"