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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

Sex | 30.01.15

Títulologia

Carina Pereira
Quanta importância têm os títulos?Para mim são o mais difícil de inventar. Tenho um texto ou poema completo mas falta-me o nome, o nome certo, o nome que condense a matéria de que aquele trabalho é feito. Dar o nome a uma obra nossa é quase como dar um nome a um filho, mas sem a responsabilidade de alguém nos odiar mais tarde por isso. Tem de soar bem aos nossos ouvidos, ou ser um nome original, ou até mostrar o nosso apreço por alguém ou alguma coisa.  Mas os títulos, tal como os nomes e as pessoas, mentem. Os títulos dão-nos a ilusão do conteúdo, mas por vezes a ilusão não passa disso mesmo.“O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.” Um título simples, conciso, que serve quase como resumo do que vamos ler. Não conta por si só uma história, mas apresenta de quem a história fala. E nós vamos lendo, embalados pela bela escrita, pela magia das coisas impossíveis, pelo pequeno toque no coração que muitas histórias infantis novamente nos dão.É mentira. Desde o título à melodia da escrita, a beleza que nos cativa é a felicidade que antecede o pior. “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” não é uma história feliz. Engana-nos com promessas de amor eternas, com a luta contra todas as desigualdades e no final derrota-nos.Eu continuo a achar que a culpa do meu desengano é do título. Um livro chamado assim, envolto num cachecol de lã tricotado com carinho, não tem direito a ser triste.Jorge Amado faz-nos amar as palavras, entrega-nos uma história cheia de afecto, que escreveu como presente para o primeiro aniversário do seu filho. E depois, no final, entrega-nos a vida como quem nos apresenta a exorbitante conta que sucede um delicioso repasto.Não convém, no entanto, é esquecermo-nos do Rouxinol. A Andorinha Sinhá ainda tem o amor do Gato Malhado e o Gato Malhado tem ainda o amor da Andorinha Sinhá. Mas o Rouxinol, esse tem apenas um casamento de fachada que ganhou pela força das circunstâncias e nenhum coração que lhe pertença.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

Sex | 30.01.15

Títulologia

Carina Pereira
Quanta importância têm os títulos?Para mim são o mais difícil de inventar. Tenho um texto ou poema completo mas falta-me o nome, o nome certo, o nome que condense a matéria de que aquele trabalho é feito. Dar o nome a uma obra nossa é quase como dar um nome a um filho, mas sem a responsabilidade de alguém nos odiar mais tarde por isso. Tem de soar bem aos nossos ouvidos, ou ser um nome original, ou até mostrar o nosso apreço por alguém ou alguma coisa.  Mas os títulos, tal como os nomes e as pessoas, mentem. Os títulos dão-nos a ilusão do conteúdo, mas por vezes a ilusão não passa disso mesmo.“O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá.” Um título simples, conciso, que serve quase como resumo do que vamos ler. Não conta por si só uma história, mas apresenta de quem a história fala. E nós vamos lendo, embalados pela bela escrita, pela magia das coisas impossíveis, pelo pequeno toque no coração que muitas histórias infantis novamente nos dão.É mentira. Desde o título à melodia da escrita, a beleza que nos cativa é a felicidade que antecede o pior. “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” não é uma história feliz. Engana-nos com promessas de amor eternas, com a luta contra todas as desigualdades e no final derrota-nos.Eu continuo a achar que a culpa do meu desengano é do título. Um livro chamado assim, envolto num cachecol de lã tricotado com carinho, não tem direito a ser triste.Jorge Amado faz-nos amar as palavras, entrega-nos uma história cheia de afecto, que escreveu como presente para o primeiro aniversário do seu filho. E depois, no final, entrega-nos a vida como quem nos apresenta a exorbitante conta que sucede um delicioso repasto.Não convém, no entanto, é esquecermo-nos do Rouxinol. A Andorinha Sinhá ainda tem o amor do Gato Malhado e o Gato Malhado tem ainda o amor da Andorinha Sinhá. Mas o Rouxinol, esse tem apenas um casamento de fachada que ganhou pela força das circunstâncias e nenhum coração que lhe pertença.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

Ter | 27.01.15

A Ilusão Da Longevidade É O Que Lentamente Nos Mata

Carina Pereira

A ilusão da longevidade é o que lentamente nos mata;

Todas as mãos se soltam,

Todos os olhares se esquecem,

Todos os corações padecem

E a eternidade não é mais do que o ardor frágil de uma beata.

A ilusão da longevidade é o que vagarosamente nos consome;

Fazemos planos,

Traçamos rotas,

Contamos anos

E descuidamos que o caminho é para ser vivido sem pressa, percorrido com fome.

A ilusão da longevidade é o que, impiedosamente, nos atraiçoa;

Engolimos palavras,

Remoemos mágoas,

Vamos ignorando

A nossa humanidade e na eternidade do momento lá vamos vivendo à toa.

A ilusão da longevidade é o que lentamente nos mata;

Quando agarro a tua mão,

Os teus olhos me decoram,

E o meu coração padece,

E da ilusão da longevidade convenientemente se esquece.

Carina Pereira, 27 de Janeiro de 2015

in "Raízes"

Ter | 27.01.15

A Ilusão Da Longevidade É O Que Lentamente Nos Mata

Carina Pereira

A ilusão da longevidade é o que lentamente nos mata;

Todas as mãos se soltam,

Todos os olhares se esquecem,

Todos os corações padecem

E a eternidade não é mais do que o ardor frágil de uma beata.

A ilusão da longevidade é o que vagarosamente nos consome;

Fazemos planos,

Traçamos rotas,

Contamos anos

E descuidamos que o caminho é para ser vivido sem pressa, percorrido com fome.

A ilusão da longevidade é o que, impiedosamente, nos atraiçoa;

Engolimos palavras,

Remoemos mágoas,

Vamos ignorando

A nossa humanidade e na eternidade do momento lá vamos vivendo à toa.

A ilusão da longevidade é o que lentamente nos mata;

Quando agarro a tua mão,

Os teus olhos me decoram,

E o meu coração padece,

E da ilusão da longevidade convenientemente se esquece.

Carina Pereira, 27 de Janeiro de 2015

in "Raízes"

Qua | 21.01.15

Relatividade

Carina Pereira
O relógio da estação de comboio marca as 14h37 e enquanto o ponteiro dos segundos vai rodando, inexorável e preciso, uma voz faz-se ouvir pelo intercomunicador.“O comboio das 15h00 encontra-se uma hora atrasado devido a problemas na linha. Para mais informações e devoluções por favor diriga-se ao guichê frontal. Pedimos desculpa pelo incómodo.” A voz vem nasalada e os ouvidos afiam-se para a entender. A mensagem pára por ali, seguida de um clique e alguma estática.A Luísa suspira e mesmo ali ao lado outro suspiro é dado baixinho, num tom diferente. Este é a resignação da Rita, que é sempre silenciosa, mesmo quando enraivecida. Ela torce as mãos uma na outra ainda mais e pousa a mala de vez sobre o chão de cimento.  A Luísa senta-se no banco que a Rita já ocupa e liberta a bolsa que trazia tão apertada junto de si.A Luísa e a Rita encontram-se agora no mesmo lugar, à espera do mesmo comboio, as duas sem nada mais em comum a não ser a demora do mesmo e a decisão de aguardar que ele chegue. O relógio bate agora 14h38 para ambas, mas passa diferente para cada uma.Depois de seis meses de espera, a Rita tem a viagem marcada, o final da mesma com vista para uns braços que há muito anseiam senti-la também. Nos entretantos que se contam entre o romance ter começado e este dia onde ela aguarda um comboio atrasado no banco da estação, existem cartas e mensagens, telefonemas tardios e saudosos, promessas, esperanças e anseios. A cada tique-taque do relógio o coração dela bate apressado, sem conseguir fazer, mesmo assim, o tempo acompanhá-lo.O suspiro da Luísa fora de alívio, o peso do mundo a sair de cima dela por momentos. Não quer ir. Por ela ficava ali para sempre, sentada no banco de metal frio à espera de um comboio que podia nunca mais chegar. O relógio bate mais depressa por minuto do que o minuto que normalmente é um minuto costuma bater. Tiquetaqueia com um baque surdo que ela sente nos ouvidos de cada vez que tenta humedecer a garganta que já há horas se fechou. Não quer ir porque o que a espera é o vazio de uma casa outrora cheia e os ecos do que em tempos tinha em abundância, mas nada mais do que isso.Ambas estão sentadas em lados opostos do mesmo banco, mãos sobre o colo, apertadas. Esperam um comboio atrasado e anseiam por algo diferente, mas são na mesma medida servas do tempo, da sua passagem e da incapacidade de lhe mudar o passo.Às 16h00 o comboio que era das três chega, pontual no seu atraso. A Rita levanta-se com satisfação e pega na mala e entra na carruagem mal a porta se abre, como se isto fosse capaz de acelerar também o andar do comboio que aguarda os passageiros, ronronando. A Luísa entra atrás dela e senta-se na sua frente, mala de novo apertada contra si. A Rita sorri-lhe, de coração leve, e a Luísa responde ao sorriso de forma breve. Depois fitam a janela, com demasiado em si próprias para serem capazes de se concentrar noutra coisa senão na paisagem e no que as espera quando chegarem aonde esta viagem as leva.O comboio parte, deixando para trás a aldeia e a estação e os bancos, portadores de histórias que a ninguém contam, que com ninguém partilham. A Rita e a Luísa nada têm em comum senão aquela viagem, aquela espera e a vista da janela.  E o tempo, que é o mesmo sem o parecer.O tempo vai puxando as cordas dos seus fantoches, retesando-as à sua mercê. E nós contámo-lo ainda assim, atados à impressão da sua relatividade.

Carina Pereira

in "Estórias Da Minha Aldeia"

Qua | 21.01.15

Relatividade

Carina Pereira
O relógio da estação de comboio marca as 14h37 e enquanto o ponteiro dos segundos vai rodando, inexorável e preciso, uma voz faz-se ouvir pelo intercomunicador.“O comboio das 15h00 encontra-se uma hora atrasado devido a problemas na linha. Para mais informações e devoluções por favor diriga-se ao guichê frontal. Pedimos desculpa pelo incómodo.” A voz vem nasalada e os ouvidos afiam-se para a entender. A mensagem pára por ali, seguida de um clique e alguma estática.A Luísa suspira e mesmo ali ao lado outro suspiro é dado baixinho, num tom diferente. Este é a resignação da Rita, que é sempre silenciosa, mesmo quando enraivecida. Ela torce as mãos uma na outra ainda mais e pousa a mala de vez sobre o chão de cimento.  A Luísa senta-se no banco que a Rita já ocupa e liberta a bolsa que trazia tão apertada junto de si.A Luísa e a Rita encontram-se agora no mesmo lugar, à espera do mesmo comboio, as duas sem nada mais em comum a não ser a demora do mesmo e a decisão de aguardar que ele chegue. O relógio bate agora 14h38 para ambas, mas passa diferente para cada uma.Depois de seis meses de espera, a Rita tem a viagem marcada, o final da mesma com vista para uns braços que há muito anseiam senti-la também. Nos entretantos que se contam entre o romance ter começado e este dia onde ela aguarda um comboio atrasado no banco da estação, existem cartas e mensagens, telefonemas tardios e saudosos, promessas, esperanças e anseios. A cada tique-taque do relógio o coração dela bate apressado, sem conseguir fazer, mesmo assim, o tempo acompanhá-lo.O suspiro da Luísa fora de alívio, o peso do mundo a sair de cima dela por momentos. Não quer ir. Por ela ficava ali para sempre, sentada no banco de metal frio à espera de um comboio que podia nunca mais chegar. O relógio bate mais depressa por minuto do que o minuto que normalmente é um minuto costuma bater. Tiquetaqueia com um baque surdo que ela sente nos ouvidos de cada vez que tenta humedecer a garganta que já há horas se fechou. Não quer ir porque o que a espera é o vazio de uma casa outrora cheia e os ecos do que em tempos tinha em abundância, mas nada mais do que isso.Ambas estão sentadas em lados opostos do mesmo banco, mãos sobre o colo, apertadas. Esperam um comboio atrasado e anseiam por algo diferente, mas são na mesma medida servas do tempo, da sua passagem e da incapacidade de lhe mudar o passo.Às 16h00 o comboio que era das três chega, pontual no seu atraso. A Rita levanta-se com satisfação e pega na mala e entra na carruagem mal a porta se abre, como se isto fosse capaz de acelerar também o andar do comboio que aguarda os passageiros, ronronando. A Luísa entra atrás dela e senta-se na sua frente, mala de novo apertada contra si. A Rita sorri-lhe, de coração leve, e a Luísa responde ao sorriso de forma breve. Depois fitam a janela, com demasiado em si próprias para serem capazes de se concentrar noutra coisa senão na paisagem e no que as espera quando chegarem aonde esta viagem as leva.O comboio parte, deixando para trás a aldeia e a estação e os bancos, portadores de histórias que a ninguém contam, que com ninguém partilham. A Rita e a Luísa nada têm em comum senão aquela viagem, aquela espera e a vista da janela.  E o tempo, que é o mesmo sem o parecer.O tempo vai puxando as cordas dos seus fantoches, retesando-as à sua mercê. E nós contámo-lo ainda assim, atados à impressão da sua relatividade.

Carina Pereira

in "Estórias Da Minha Aldeia"

Sab | 17.01.15

Hoje Eu Não Me Recomendo

Carina Pereira
Era tão bom, não era, podermos dizer assim como quem bate baixinho ao coração, para não magoar, que hoje não nos recomendamos! Mesmo sem a voz do Rui Veloso a romancear a coisa. Entregarmos panfletos em casa e no trabalho, sem precisar de pedidos de desculpa, porque todos nós temos dias bons e menos bons. Apenas passar o papel, rodar sobre os calcanhares e dizer, com um suspiro: “Hoje não me recomendo, faz de conta que não estou cá.”  No dia seguinte, sem pesar, entregar chocolates para quem não se recomenda também agora, porque a vez chega a todos.Era bom que o povo, que padece de muitos dos mesmos males, inventasse assim uma série de códigos de conduta para situações e sentimentos tão comuns, os quais nós fazemos de conta que não podem ter parte na rotina diária. Sem exageros, claro.Se os cotovelos realmente falassem podem ter a certeza que eu arranjava o que dizer por eles também, mas há dias em que o esforço de fazer conversa, de dar respostas simples até, me assombra mesmo a mim. E então, nessas alturas raras, eu tirava um desses papéis, com um sorriso sem remorso, e lá se lia “hoje estou assim meio para o chocha, tentar de novo amanhã,” e a vida continuava e o amanhã chegava, e vinham os chocolates e a tagarelice de volta. Era tão bom.Mas nem eu nem os outros carregam consigo esse tipo de avisos e eu ergo as minhas sobrancelhas, questionando-me porque raio o empregado de mesa me serviu de forma tão rude, pergunto-me até que mal é que lhe fiz eu para ele agir assim para comigo. E no final era tão fácil: um papel de “hoje não me recomendo” com o café e o virar de costas ressentido transformava-se em gorgeta e, se calhar, mudava um dia.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

[embed]https://www.youtube.com/watch?v=KyccxYiUF4g[/embed]

Sab | 17.01.15

Hoje Eu Não Me Recomendo

Carina Pereira
Era tão bom, não era, podermos dizer assim como quem bate baixinho ao coração, para não magoar, que hoje não nos recomendamos! Mesmo sem a voz do Rui Veloso a romancear a coisa. Entregarmos panfletos em casa e no trabalho, sem precisar de pedidos de desculpa, porque todos nós temos dias bons e menos bons. Apenas passar o papel, rodar sobre os calcanhares e dizer, com um suspiro: “Hoje não me recomendo, faz de conta que não estou cá.”  No dia seguinte, sem pesar, entregar chocolates para quem não se recomenda também agora, porque a vez chega a todos.Era bom que o povo, que padece de muitos dos mesmos males, inventasse assim uma série de códigos de conduta para situações e sentimentos tão comuns, os quais nós fazemos de conta que não podem ter parte na rotina diária. Sem exageros, claro.Se os cotovelos realmente falassem podem ter a certeza que eu arranjava o que dizer por eles também, mas há dias em que o esforço de fazer conversa, de dar respostas simples até, me assombra mesmo a mim. E então, nessas alturas raras, eu tirava um desses papéis, com um sorriso sem remorso, e lá se lia “hoje estou assim meio para o chocha, tentar de novo amanhã,” e a vida continuava e o amanhã chegava, e vinham os chocolates e a tagarelice de volta. Era tão bom.Mas nem eu nem os outros carregam consigo esse tipo de avisos e eu ergo as minhas sobrancelhas, questionando-me porque raio o empregado de mesa me serviu de forma tão rude, pergunto-me até que mal é que lhe fiz eu para ele agir assim para comigo. E no final era tão fácil: um papel de “hoje não me recomendo” com o café e o virar de costas ressentido transformava-se em gorgeta e, se calhar, mudava um dia.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

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Sex | 16.01.15

Os Dias De Hoje Em Dia

Carina Pereira
Hoje o texto de opinião vem com uma nuance um pouco pessimista. Não gosto de assombrar os dias solarengos de ninguém, por isso aguentem-se que a peça não é trágica.  Falo sobre a tão conhecida “generation gap,” termo que vai ser abusado e ajustado, à minha mercê, pois não descreve bem o que quero, mas é o melhor que encontro.Em qualquer tertúlia, quando nos sentamos à volta de uma mesa, ou fazemos uma rodinha num canto de uma sala e falamos do tempo e das coisas, vem sempre à baila o descontentamento com a situação actual. Não me refiro estritamente à situação económica, ou política, mas a qualquer situação menos boa que acontece. Roubaram o carro a alguém, enganaram os trabalhadores de uma fábrica centenária, aqueles dois que ainda ontem se casaram e hoje estão separados. Sempre que num destes assuntos se toca – e aparecem sempre, porque quando se ultrapassa a conversa de circunstância do tempo e da vida, os assuntos “trágicos” sucedem-se, que o povo também gosta de se queixar – a típica frase sempre surge, como que colocando um ponto final na história: “Isto hoje em dia...”Não há nada que me faça ficar tão chateada como esta frase. Pronto, está bem, há várias coisas que me deixam bem mais chateada do que esta frase, mas esta eu não consigo deixar passar. Esta frase, assim tão típica, tão conhecida e repetida, que é dita no acto reflexo de quem diz “é assim a vida,” antes de se despedir de um conhecido de rua com alívio porque aquilo significa que a conversa finalmente acabou, faz-me logo bater com a mão na mesa e, em jeito de advogado de defesa, exclamar: “Objecção!” e logo vou eu citar de memória a sabedoria de Sócrates, proferida em 469 A. C.:  “As crianças de hoje adoram luxo, são malcriadas, ignoram a autoridade, desrespeitam os mais velhos e amam conversar em vez de se esforçar. As crianças de hoje são tiranas, sem colaborar na família. Pensam apenas em si mesmas, não aceitam proibições e falam como se soubessem tudo. No caso das meninas, elas são avançadas, indecentes e pouco femininas no falar, no comportamento e no vestir.” Bem sei que os exemplos que dei antes de Sócrates aparecer não têm tanto a ver com gerações e sim com uma visão da sociedade, mas permitam-me usar o termo agora e entendam ao que me refiro: aldrabões sempre os houveram, má-educação e amores que no fim não o são, também. Ser-se mais ou menos decente depende dos tempos, que se mudam assim como as vontades, já dizia Camões. Por isso, quando encolhem os ombros num acto de resignação e me dizem que este mundo de agora é isto ou aquilo, geração rasca ou chiclete, eu não consigo acenar com ar de sabedoria e concordância e terminar a conversa assim.Esta geração não é pior; cada indivíduo que a compõe é-o com certeza em algumas coisas, mas é  também melhor noutras. Nesta geração não há pessoas mais estúpidas, mais preguiçosas, ou mais mal-educadas do que nas outras gerações. A mesma estirpe de indivíduos – bons e maus, e mais ou menos – sempre existiu em todas as eras, e vai existir sempre. Dizer o contrário é escolher o caminho fácil e ver só o que se quer. As pessoas crescem, envelhecem, e os outros alteram-se aos nossos olhos. E sabemos mais do mundo, e das coisas más que com ele vêm. Mas se guardamos o que um dia fomos e nos damos ao trabalho de olhar para trás, sabemos também que a mudança é tanto nossa quanto do mundo e dos outros. Não é uma questão do que é agora apenas, mas de quem nós agora somos, porque nós estamos em constante mudança.Generation gap para mim é perda de esperança. É não querer dar aos outros, mais novos e menos experientes, ou mais velhos e mais cautelosos, o crédito que um dia desejámos que nos tivessem dado, e vamos desejar que nos dêem no futuro. É a hipocrisia e a falta de senso de achar que somos melhores, mas vivemos numa época onde os outros – e o mundo – são piores.Eu não sou dos velhos tempos porque pertenço ao agora e não acho que a este tempo lhe faltem valores. Só sei que o mundo é, foi, e sempre será feito de pessoas e de tudo o que elas trazem consigo. E isto hoje em dia não é só dos dias de hoje.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

Sex | 16.01.15

Os Dias De Hoje Em Dia

Carina Pereira
Hoje o texto de opinião vem com uma nuance um pouco pessimista. Não gosto de assombrar os dias solarengos de ninguém, por isso aguentem-se que a peça não é trágica.  Falo sobre a tão conhecida “generation gap,” termo que vai ser abusado e ajustado, à minha mercê, pois não descreve bem o que quero, mas é o melhor que encontro.Em qualquer tertúlia, quando nos sentamos à volta de uma mesa, ou fazemos uma rodinha num canto de uma sala e falamos do tempo e das coisas, vem sempre à baila o descontentamento com a situação actual. Não me refiro estritamente à situação económica, ou política, mas a qualquer situação menos boa que acontece. Roubaram o carro a alguém, enganaram os trabalhadores de uma fábrica centenária, aqueles dois que ainda ontem se casaram e hoje estão separados. Sempre que num destes assuntos se toca – e aparecem sempre, porque quando se ultrapassa a conversa de circunstância do tempo e da vida, os assuntos “trágicos” sucedem-se, que o povo também gosta de se queixar – a típica frase sempre surge, como que colocando um ponto final na história: “Isto hoje em dia...”Não há nada que me faça ficar tão chateada como esta frase. Pronto, está bem, há várias coisas que me deixam bem mais chateada do que esta frase, mas esta eu não consigo deixar passar. Esta frase, assim tão típica, tão conhecida e repetida, que é dita no acto reflexo de quem diz “é assim a vida,” antes de se despedir de um conhecido de rua com alívio porque aquilo significa que a conversa finalmente acabou, faz-me logo bater com a mão na mesa e, em jeito de advogado de defesa, exclamar: “Objecção!” e logo vou eu citar de memória a sabedoria de Sócrates, proferida em 469 A. C.:  “As crianças de hoje adoram luxo, são malcriadas, ignoram a autoridade, desrespeitam os mais velhos e amam conversar em vez de se esforçar. As crianças de hoje são tiranas, sem colaborar na família. Pensam apenas em si mesmas, não aceitam proibições e falam como se soubessem tudo. No caso das meninas, elas são avançadas, indecentes e pouco femininas no falar, no comportamento e no vestir.” Bem sei que os exemplos que dei antes de Sócrates aparecer não têm tanto a ver com gerações e sim com uma visão da sociedade, mas permitam-me usar o termo agora e entendam ao que me refiro: aldrabões sempre os houveram, má-educação e amores que no fim não o são, também. Ser-se mais ou menos decente depende dos tempos, que se mudam assim como as vontades, já dizia Camões. Por isso, quando encolhem os ombros num acto de resignação e me dizem que este mundo de agora é isto ou aquilo, geração rasca ou chiclete, eu não consigo acenar com ar de sabedoria e concordância e terminar a conversa assim.Esta geração não é pior; cada indivíduo que a compõe é-o com certeza em algumas coisas, mas é  também melhor noutras. Nesta geração não há pessoas mais estúpidas, mais preguiçosas, ou mais mal-educadas do que nas outras gerações. A mesma estirpe de indivíduos – bons e maus, e mais ou menos – sempre existiu em todas as eras, e vai existir sempre. Dizer o contrário é escolher o caminho fácil e ver só o que se quer. As pessoas crescem, envelhecem, e os outros alteram-se aos nossos olhos. E sabemos mais do mundo, e das coisas más que com ele vêm. Mas se guardamos o que um dia fomos e nos damos ao trabalho de olhar para trás, sabemos também que a mudança é tanto nossa quanto do mundo e dos outros. Não é uma questão do que é agora apenas, mas de quem nós agora somos, porque nós estamos em constante mudança.Generation gap para mim é perda de esperança. É não querer dar aos outros, mais novos e menos experientes, ou mais velhos e mais cautelosos, o crédito que um dia desejámos que nos tivessem dado, e vamos desejar que nos dêem no futuro. É a hipocrisia e a falta de senso de achar que somos melhores, mas vivemos numa época onde os outros – e o mundo – são piores.Eu não sou dos velhos tempos porque pertenço ao agora e não acho que a este tempo lhe faltem valores. Só sei que o mundo é, foi, e sempre será feito de pessoas e de tudo o que elas trazem consigo. E isto hoje em dia não é só dos dias de hoje.

Carina Pereira

in "Crónicas Ao Acaso"

Sex | 16.01.15

De Volta À Guitarra - Musiquinha Fácil

Carina Pereira
Fácil, como quem diz. Ainda me custa trocar entre acordes, mas devagarinho lá vai indo.Encontrei alguns acordes mais simples para quem há pouco começou, como eu. Por isso decidi deixar o link para esses acordes aqui. Há algumas músicas que tenho de tocar com capo, ou tocar um tom acima, mas lá as vou conseguindo tocar.A lista está sujeita a alterações, pois eu colocarei aqui mais links à medida que for encontrando novas músicas.O acordes destas canções são quase todos sem cordas barradas. Quase. Porque me apercebi ontem que afinal, vá-se lá saber como, até já consigo tocar cordas barradas!Alguns dos Fados não estão disponíveis no site Cifras, mas os links vão directamente ao site de Fados Tradicionais, onde se encontram os acordes dos mesmos.Aqui ficam!*Marry You - Bruno MarsI'm Yours - Jason MrazCinderela - Carlos PaiãoPó De Arroz - Carlos PaiãoA Minha Casinha - Xutos e PontapésDunas - GNRGota De Água - Moda AlentejanaWhat's Up - 4 Non BlondesKnocking On Heaven's Door - Guns and RosesChuva - MarizaMais Um Fado No Fado - CamanéFado LoucuraRosinha Dos Limões - MaxNão Venhas Tarde - Carlos RamosEstou Além - António VariaçõesLisboa Menina E Moça - Carlos Do CarmoDuas Lágrimas De Orvalho - Carlos Do CarmoFatalidade - António ZambujoQue Tom É Que O Fado Quer - Marco RodriguesQuando O Fim Volta Ao Início - Marco RodriguesBairro Alto - Carlos Do CarmoOlhos Estranhos - Pedro MoutinhoLume - CamanéFado Do Estudante - Marco Rodrigues*Para quem gosta de Fado pode então encontrar aqui vários acordes de Fados tradicionais, e sigam este blog de viola do Fado que é excepcional!

Carina Pereira

Sex | 16.01.15

De Volta À Guitarra - Musiquinha Fácil

Carina Pereira
Fácil, como quem diz. Ainda me custa trocar entre acordes, mas devagarinho lá vai indo.Encontrei alguns acordes mais simples para quem há pouco começou, como eu. Por isso decidi deixar o link para esses acordes aqui. Há algumas músicas que tenho de tocar com capo, ou tocar um tom acima, mas lá as vou conseguindo tocar.A lista está sujeita a alterações, pois eu colocarei aqui mais links à medida que for encontrando novas músicas.O acordes destas canções são quase todos sem cordas barradas. Quase. Porque me apercebi ontem que afinal, vá-se lá saber como, até já consigo tocar cordas barradas!Alguns dos Fados não estão disponíveis no site Cifras, mas os links vão directamente ao site de Fados Tradicionais, onde se encontram os acordes dos mesmos.Aqui ficam!*Marry You - Bruno MarsI'm Yours - Jason MrazCinderela - Carlos PaiãoPó De Arroz - Carlos PaiãoA Minha Casinha - Xutos e PontapésDunas - GNRGota De Água - Moda AlentejanaWhat's Up - 4 Non BlondesKnocking On Heaven's Door - Guns and RosesChuva - MarizaMais Um Fado No Fado - CamanéFado LoucuraRosinha Dos Limões - MaxNão Venhas Tarde - Carlos RamosEstou Além - António VariaçõesLisboa Menina E Moça - Carlos Do CarmoDuas Lágrimas De Orvalho - Carlos Do CarmoFatalidade - António ZambujoQue Tom É Que O Fado Quer - Marco RodriguesQuando O Fim Volta Ao Início - Marco RodriguesBairro Alto - Carlos Do CarmoOlhos Estranhos - Pedro MoutinhoLume - CamanéFado Do Estudante - Marco Rodrigues*Para quem gosta de Fado pode então encontrar aqui vários acordes de Fados tradicionais, e sigam este blog de viola do Fado que é excepcional!

Carina Pereira

Qui | 15.01.15

Passo Por Ti Cada Dia

Carina Pereira
E mais uma fichinha, mais uma musiquinha!Publiquei aqui a letra deste fado há dias e agora, como é usual, deixo a gravação da música que me surgiu na altura em que a letra também foi tomando forma. Sempre só com a minha voz, enquanto a guitarra não fica dominada. Fica novamente a letra por baixo do link, para acompanharem.A gravação está um pouco para o azelha, pois eu estava distraidamente a usar o gravador quase como se fosse um microfone, por isso ouçam com precaução (i.e. baixem o volume pelo vosso bem, e perdoem-me o vai e vem do som.)Passo Por Ti Cada Dia*Passo por ti cada diaQuando voltas do liceuTrazes os livros na mão e nem sabesQue eu sonho com um beijo teu
Sirvo-te o café bem quenteTão quente quanto o meu coraçãoMas os teu olhos nem sequer se levantamFicam a fitar o chão
Vais corrigindo os pontosCom os óculos bem ajustadosEu vou-te vendo de trás do balcãoVou sonhando que és o meu namoradoCasamos num dia de PrimaveraSomos felizes como nunca foi ninguémVens da escola, eu estou à tua esperaSirvo-te o café, dizes que me amas também
Depois acordo e tu pedes-me a contaEu coro e digo que hoje não é nadaUm dia hás-de casar-te comigoUm dia hás-de levar-me para casa
Por agora vou arrumando a tua mesaE recolho o papel que deixaste para mim“Passo por ti cada dia,” escreveste“Será que também gostas de mim?”
“Passo por ti cada dia,” escreveste“Será que também gostas de mim?”

Carina Pereira

Qui | 15.01.15

Passo Por Ti Cada Dia

Carina Pereira
E mais uma fichinha, mais uma musiquinha!Publiquei aqui a letra deste fado há dias e agora, como é usual, deixo a gravação da música que me surgiu na altura em que a letra também foi tomando forma. Sempre só com a minha voz, enquanto a guitarra não fica dominada. Fica novamente a letra por baixo do link, para acompanharem.A gravação está um pouco para o azelha, pois eu estava distraidamente a usar o gravador quase como se fosse um microfone, por isso ouçam com precaução (i.e. baixem o volume pelo vosso bem, e perdoem-me o vai e vem do som.)Passo Por Ti Cada Dia*Passo por ti cada diaQuando voltas do liceuTrazes os livros na mão e nem sabesQue eu sonho com um beijo teu
Sirvo-te o café bem quenteTão quente quanto o meu coraçãoMas os teu olhos nem sequer se levantamFicam a fitar o chão
Vais corrigindo os pontosCom os óculos bem ajustadosEu vou-te vendo de trás do balcãoVou sonhando que és o meu namoradoCasamos num dia de PrimaveraSomos felizes como nunca foi ninguémVens da escola, eu estou à tua esperaSirvo-te o café, dizes que me amas também
Depois acordo e tu pedes-me a contaEu coro e digo que hoje não é nadaUm dia hás-de casar-te comigoUm dia hás-de levar-me para casa
Por agora vou arrumando a tua mesaE recolho o papel que deixaste para mim“Passo por ti cada dia,” escreveste“Será que também gostas de mim?”
“Passo por ti cada dia,” escreveste“Será que também gostas de mim?”

Carina Pereira

Dom | 11.01.15

Todas As Vidas Do Mundo

Carina Pereira

Quero todas as vidas do mundo,

Todas as possibilidades,

Quero chegar e já ter saudades

Do que findou, sem assim ser oriundo


De parte nenhuma, de lugar algum,

Mas quero pertencer a tudo em que toco,

Quero do compromisso o sufoco

E a liberdade de amor nenhum.


Quero pertencer ao mundo e partir,

Mas ficar para criar raízes no chão.

Não sei viver sem a contradição

De querer ser tudo e nada me servir.


Assim vou eu correndo,

A querer todas as vidas do mundo

E com este coração vagabundo

Nem a minha vou vivendo

Carina Pereira, 11 De Janeiro de 2015

in "Raízes"

Dom | 11.01.15

Todas As Vidas Do Mundo

Carina Pereira

Quero todas as vidas do mundo,

Todas as possibilidades,

Quero chegar e já ter saudades

Do que findou, sem assim ser oriundo


De parte nenhuma, de lugar algum,

Mas quero pertencer a tudo em que toco,

Quero do compromisso o sufoco

E a liberdade de amor nenhum.


Quero pertencer ao mundo e partir,

Mas ficar para criar raízes no chão.

Não sei viver sem a contradição

De querer ser tudo e nada me servir.


Assim vou eu correndo,

A querer todas as vidas do mundo

E com este coração vagabundo

Nem a minha vou vivendo

Carina Pereira, 11 De Janeiro de 2015

in "Raízes"

Dom | 11.01.15

O Homem Que Não Queria Morrer

Carina Pereira
Este ano gostava de escrever um "livro." Coloco a palavras entre aspas porque não sou assim tão ambiciosa. Estou a fazer isto por mim, para provar que consigo. Já há tanto tempo que não escrevo histórias originais extensas que não sei até que ponto sou capaz de levar uma avante.Para já tenho uma ideia. Várias ideias. Sem estrutura, apenas com um início e fim, pois é assim que todas as minhas histórias começam. Surgem também primeiramente pontos chave, e tenho de descobrir como a eles chegar, aos poucos. Eu sempre disse que na escrita não são as margens, os portos onde atracamos o nosso barco, que são difíceis de construir e encontrar, mas é preciso saber contruir as pontes que nos levam até lá.Tenho de fazer esquemas, definir as personagens e dar sentido à estória.Deixo aqui então o prólogo, que pode vir a sofrer alterações no futuro.*"5 de Janeiro de 2014A primeira vez que o vi foi num Domingo, 14 de Janeiro de 2007. Estava sentada à minha secretária novinha em folha, de olhos bem abertos, absorvendo os cheiros que ainda não se tinham entranhado em mim, ouvindo os ruídos de uma casa que pertencia a mim apenas. Finalmente – embora confesse que com tanto receio quanto entusiasmo – tinha conseguido mudar-me para uma casa só minha. Era pequena, quase um estúdio. E um pouco mais longe do centro da cidade, o que me custaria nos transportes públicos, mas era um cantinho só para mim, longe dos gritos do meu pai quando a equipa de futebol perdia, e do choro da minha mãe pelo que daí sempre vinha.Não fugi das circunstâncias da minha vida. Ou talvez até o tenha feito, mas eu precisava de um espaço limpo, livre do fantasma de nódoas negras e sangue nas paredes. Livre de palavras feias ditas com sentimento, e de olhares que me mostrassem que eu era, e sempre seria, um erro que eles tinham cometido.Não gosto de culpar ninguém pelos meus defeitos, e sei que construí a minha vida à pressa para fugir daquilo que nunca serei capaz de deixar para trás. Ainda visito os meus pais sem regularidade, cada um em sua casa agora, mas não penso no passado. Era bom que isto fosse porque sou uma rebelde que vive no momento, mas é só porque o passado me traz pesadelos.Não tenho irmãos porque, apesar de tudo, os meus pais tiveram o discernimento de não cometer um erro similar, e também não tenho laços familiares. As visitas que faço são devidas ao meu ridículo sentido de dever, porque o sangue que nos corre nas veias não significa nada, mas é feito do mesmo.O lugar que escolhi para cementar os alicerces do meu futuro incerto é calmo, e bonito. A pequenez apenas o torna mais acolhedor, e os móveis – poucos – em segunda mão, que eu poli, envernizei e pintei com tintas dadas por um amigo, dão-lhe um aspecto tosco e por isso mesmo, mais familiar. Aqui todos se sentem aceites, sem receio de estragar o que quer que seja, porque tudo já foi quebrado, inclusivé eu.A secretária onde me sentava naquele domingo era a única coisa que eu tinha comprado, sem capricho, mas porque podia. Era larga, com gavetas à volta, e o tampo de madeira escura pintado com tinta de quardo negro; uma das gavetas trazia já giz de várias cores, para se desenhar o que bem se entendesse.Quando me ajudaram a mudar as coisas para cá a Joana e o Miguel deixaram as suas mensagens, mas o giz foi-se transformando em pó e as palavras tornaram-se quase ilegíveis, até que eu, por necessidade, as limpei com um pano húmido, apagando-as para sempre.Nem sempre me dou com companhia. Tenho jeito para conversar mas isso não quer dizer que goste. Sempre me pediram para subir a vários estrados em várias fases da minha vida, só porque o que digo sai com fluídez, mas nunca se questionaram se eu gostava. As pessoas assumem que só porque fazes algo bem imediatamente o fazes por gosto. Não é assim.A casa em frente à minha janela é branca, com muros altos, mas não o suficiente para tapar as janelas e o telhado de telha vermelha. O musgo que se vai formando nas paredes dever ser limpo regularmente, e a gradeação é feita de setas brancas. Tem um portão com a mesma forma, que deixa espreitar para o jardim, e as luzes ficam acessas toda a noite. As árvores plantadas em frente têm troncos finos e perderam já as suas folhas. Abanam ao vento como se convidassem os pássaros a fazerem ali os seus ninhos, sabendo que estão demasiado desprotegidas para os pássaros as quererem.A janela da minha sala – e cozinha – vai do chão até ao tecto, e está limpa. O pequeno jardim em frente está coberto com as folhas das àrvores da rua, que eu vou ter de varrer e apanhar eventualmente.E é quando o vejo.Não é mais do que um tremeluzir, uma forma que eu me convenço ser apenas o cansaço a apoderar-se de mim. Levanto o rosto, que até então tinha apoiado na minha mão esquerda, enviesado, e o meu coração corre no peito, sem ir a lado nenhum. Franzo o sobrolho e abano a cabeça, bocejando. Preciso de começar a deitar-me mais cedo.Mas então a alucinação toma forma e uma figura menos etérea, mais certa, surge e calca todas aquelas folhas que eu tenho de limpar. Olha em frente e o seus olhos – cuja cor não consigo ainda decifrar  – pousam sobre mim.Eu hesito. Depois levanto-me e dirigo-me para a porta. Abro-a e deixo-a escancarada, saindo para a rua.Quando chego à frente da minha janela só as folhas que o Outono roubou às árvores me cumprimentam, mostrando pegadas de alguém que parece nunca ali ter estado.Isto aconteceu duas vezes mais antes da estranha aparição decidir que encontrar-me sempre a mim tinha de ter algum significado.Agora, quase sete anos depois, consigo entender por fim porque é que eu, e mais ninguém, estava destinada a vê-lo."

Carina Pereira

Dom | 11.01.15

O Homem Que Não Queria Morrer

Carina Pereira
Este ano gostava de escrever um "livro." Coloco a palavras entre aspas porque não sou assim tão ambiciosa. Estou a fazer isto por mim, para provar que consigo. Já há tanto tempo que não escrevo histórias originais extensas que não sei até que ponto sou capaz de levar uma avante.Para já tenho uma ideia. Várias ideias. Sem estrutura, apenas com um início e fim, pois é assim que todas as minhas histórias começam. Surgem também primeiramente pontos chave, e tenho de descobrir como a eles chegar, aos poucos. Eu sempre disse que na escrita não são as margens, os portos onde atracamos o nosso barco, que são difíceis de construir e encontrar, mas é preciso saber contruir as pontes que nos levam até lá.Tenho de fazer esquemas, definir as personagens e dar sentido à estória.Deixo aqui então o prólogo, que pode vir a sofrer alterações no futuro.*"5 de Janeiro de 2014A primeira vez que o vi foi num Domingo, 14 de Janeiro de 2007. Estava sentada à minha secretária novinha em folha, de olhos bem abertos, absorvendo os cheiros que ainda não se tinham entranhado em mim, ouvindo os ruídos de uma casa que pertencia a mim apenas. Finalmente – embora confesse que com tanto receio quanto entusiasmo – tinha conseguido mudar-me para uma casa só minha. Era pequena, quase um estúdio. E um pouco mais longe do centro da cidade, o que me custaria nos transportes públicos, mas era um cantinho só para mim, longe dos gritos do meu pai quando a equipa de futebol perdia, e do choro da minha mãe pelo que daí sempre vinha.Não fugi das circunstâncias da minha vida. Ou talvez até o tenha feito, mas eu precisava de um espaço limpo, livre do fantasma de nódoas negras e sangue nas paredes. Livre de palavras feias ditas com sentimento, e de olhares que me mostrassem que eu era, e sempre seria, um erro que eles tinham cometido.Não gosto de culpar ninguém pelos meus defeitos, e sei que construí a minha vida à pressa para fugir daquilo que nunca serei capaz de deixar para trás. Ainda visito os meus pais sem regularidade, cada um em sua casa agora, mas não penso no passado. Era bom que isto fosse porque sou uma rebelde que vive no momento, mas é só porque o passado me traz pesadelos.Não tenho irmãos porque, apesar de tudo, os meus pais tiveram o discernimento de não cometer um erro similar, e também não tenho laços familiares. As visitas que faço são devidas ao meu ridículo sentido de dever, porque o sangue que nos corre nas veias não significa nada, mas é feito do mesmo.O lugar que escolhi para cementar os alicerces do meu futuro incerto é calmo, e bonito. A pequenez apenas o torna mais acolhedor, e os móveis – poucos – em segunda mão, que eu poli, envernizei e pintei com tintas dadas por um amigo, dão-lhe um aspecto tosco e por isso mesmo, mais familiar. Aqui todos se sentem aceites, sem receio de estragar o que quer que seja, porque tudo já foi quebrado, inclusivé eu.A secretária onde me sentava naquele domingo era a única coisa que eu tinha comprado, sem capricho, mas porque podia. Era larga, com gavetas à volta, e o tampo de madeira escura pintado com tinta de quardo negro; uma das gavetas trazia já giz de várias cores, para se desenhar o que bem se entendesse.Quando me ajudaram a mudar as coisas para cá a Joana e o Miguel deixaram as suas mensagens, mas o giz foi-se transformando em pó e as palavras tornaram-se quase ilegíveis, até que eu, por necessidade, as limpei com um pano húmido, apagando-as para sempre.Nem sempre me dou com companhia. Tenho jeito para conversar mas isso não quer dizer que goste. Sempre me pediram para subir a vários estrados em várias fases da minha vida, só porque o que digo sai com fluídez, mas nunca se questionaram se eu gostava. As pessoas assumem que só porque fazes algo bem imediatamente o fazes por gosto. Não é assim.A casa em frente à minha janela é branca, com muros altos, mas não o suficiente para tapar as janelas e o telhado de telha vermelha. O musgo que se vai formando nas paredes dever ser limpo regularmente, e a gradeação é feita de setas brancas. Tem um portão com a mesma forma, que deixa espreitar para o jardim, e as luzes ficam acessas toda a noite. As árvores plantadas em frente têm troncos finos e perderam já as suas folhas. Abanam ao vento como se convidassem os pássaros a fazerem ali os seus ninhos, sabendo que estão demasiado desprotegidas para os pássaros as quererem.A janela da minha sala – e cozinha – vai do chão até ao tecto, e está limpa. O pequeno jardim em frente está coberto com as folhas das àrvores da rua, que eu vou ter de varrer e apanhar eventualmente.E é quando o vejo.Não é mais do que um tremeluzir, uma forma que eu me convenço ser apenas o cansaço a apoderar-se de mim. Levanto o rosto, que até então tinha apoiado na minha mão esquerda, enviesado, e o meu coração corre no peito, sem ir a lado nenhum. Franzo o sobrolho e abano a cabeça, bocejando. Preciso de começar a deitar-me mais cedo.Mas então a alucinação toma forma e uma figura menos etérea, mais certa, surge e calca todas aquelas folhas que eu tenho de limpar. Olha em frente e o seus olhos – cuja cor não consigo ainda decifrar  – pousam sobre mim.Eu hesito. Depois levanto-me e dirigo-me para a porta. Abro-a e deixo-a escancarada, saindo para a rua.Quando chego à frente da minha janela só as folhas que o Outono roubou às árvores me cumprimentam, mostrando pegadas de alguém que parece nunca ali ter estado.Isto aconteceu duas vezes mais antes da estranha aparição decidir que encontrar-me sempre a mim tinha de ter algum significado.Agora, quase sete anos depois, consigo entender por fim porque é que eu, e mais ninguém, estava destinada a vê-lo."

Carina Pereira

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