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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Seg | 07.09.15

Para Lá Do Que Se Vê

Carina Pereira
Quanto mais falo das minhas experiências pessoais com outros, mais as pessoas se sentem à vontade para partilhar as delas comigo, e mais me apercebo que há muita gente que não é verdadeiramente feliz. E, no entanto, antes delas se abrirem comigo, eu olhava para dentro de mim mesma e contemplava as lombas todas no meu caminho e pensava que o mundo estava cheio de pessoas felizes. Pessoas certas das relações que tinham, das coisas que queriam fazer com a vida. Mas depois fui recolhendo contos de vida e descobri que afinal não, que estão tão ou mais perdidas do que eu. Simplesmente, porque não lhes via o mundo interior, não lhes conseguia adivinhar a aflição.

É pena. É pena que as fotografias sorridentes que eu vejo, quando se revela verdadeiramente o rolo e o momento se dissolve, estejam afinal cheias das mesmas dúvidas que durante meses me assombraram, do mesmo medo de dar o passo que se sabe que, inevitavelmente, é preciso. Pessoas que querem recomeçar e, no entanto, ainda aguardam um milagre qualquer que lhes vire a vida para um avesso que já esteve afinal às direitas, ou então uma mão qualquer que lhes empurre para a frente e as obrigue a fazer o que é necessário, o que é melhor, para que o recomeço, a seu tempo, lhes possa trazer uma esperança qualquer no futuro.

Quanto mais conto sobre mim, mais sei de outros contos que não são de fadas, mas em vez são pontes de madeira e corda, cujos fios que prendem uma margem à outra estão a dissolver-se pouco a pouco. E o pior nem é atravessar a ponte, é saber que canto menos danificado escolher, para causar os menores danos possíveis. A ponte há-de cair, outras pontes mais seguras e que levam a caminhos mais certos se erguerão, mas é preciso ter coragem para derrubar o que demorou tanto a construir.

Talvez sejamos todos demasiado inconstantes para amar. Demasiado apegados ao que morre lentamente, para que isso não nos mate também.

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