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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Qui | 13.04.17

Nós, Mulheres, Somos Muito Parvas

Carina Pereira

O meu grupo de amigos tem uma piada sobre como, quando algumas mulheres se juntam a conversar, a conversa acaba sempre em pêlos. Já por várias vezes, enunciando a piada, acaba a mesa toda -  quer queira, quer não - a falar sobre falar de pêlos.

Esta semana a filha da Madonna, Lourdes Maria, foi à praia com a depilação das axilas por fazer e o mundo parou.

(Tenho de me lembrar de trazer esta notícia à baila no próximo jantar com amigos, há que haver fama com proveito.)

O Pedro José, do blog esQrever, disse já tudo aquilo que eu gostaria de ter dito sobre a situação aqui, por isso vou falar antes de um outro assunto, o que nos vai levar ao título da publicação (não me crucifiquem já).

Lembro-me perfeitamente de a minha mãe me contar uma história que, aos meus ouvidos de adolescente nascida em '87 e criada com uma dose de machismo considerável, me parecia um pouco descabida, acerca de antigamente não ser costume as mulheres se depilarem e de o meu avô até desejar que a minha avó fosse mais peluda (no kinkshaming, guys). Naquela altura, e sendo uma pessoa que daria tudo para não ter de me preocupar com a depilação - ai, quem me dera ter nascido homem! - achei que a minha mãe devia ter entendido alguma coisa mal mas, a ter entendido bem, lamentava que as coisas não fossem assim agora. Mais valia andar a queixar-me por ter pêlos a menos, certo? Mais ou menos, e isso deixa-me mais perto do cerne da questão: o título.

A depilação feminina só começou a ser norma entre 1915 e 1930 (nuns países mais cedo do que noutros) e há quem diga que foi a Primeira Guerra Mundial a ditar isto: a maioria dos homens ou andava a lutar na guerra, ou morria, e a venda de giletes teve um declínio considerável. Posto isto, a marca adaptou uma nova estratégia de marketing e começou a publicitar as giletes às mulheres, de forma a continuar a vender produtos. No entanto esta crença é, pelo que pesquisei até agora, apenas uma teoria. A história documentada fala sobre um poster da Harper's Bazaar, de 1922, - altura em que a moda mudou e as mulheres começaram a mostrar pele (neste caso, os braços, por causa das mangas cavas) - que incentivava as mulheres a depilarem as axilas com um creme depilatório que eles vendiam, e ainda envergonhava aquelas que não aderissem à moda. E aqui chegamos ao ponto. Ao meu ponto.

harper's bazaar 1922.jpg

Façam um favor a vocês mesmos e olhem para os homens à vossa volta. Vão à net, vejam anúncios do Surf, procurem onde quiserem. Há homens com barba, sem barba, com bigode apenas (um bocado creepy hoje em dia, por acaso, mais ainda aceitável), barbas de três dias ou à lenhador, há de tudo. A única altura em que vejo homens  a serem ligeiramente admoestados pelo tipo de barba que usam, é quando ela está mal tratada de tal forma, que parece pertencer uns bons centimetros mais abaixo. De resto, é tudo normal. Depende dos gostos, mas cada um usa como quer. Há pêlos por todo o lado e os homens tiram aqueles que lhes dá mais jeito e deixam os que não lhes apetece tirar. O sonho, portanto.

Já nas mulheres, num repente, pêlos torna-se sinal de má-higiene. Nem se questiona sequer o quanto os homens suam nem o tamanho dos pêlos do sovaco de alguns, nos homens é tudo higiénico. Nós, mulheres, muitas vezes temos de levar com comentários rançosos porque o que está na moda é depilação brasileira. Levantamos os braços num concerto e, de repente, esbugalhamos os olhos em pânico porque não nos lembrámos se hoje de manhã pegámos na gilete durante o duche e mais vale não nos arriscarmos a passar vergonha. Quantas vezes tive de deixar de ir à praia porque, às duas semanas e meia após a tortura da depilação a cera, os pêlos ainda não estão grandes o suficiente para mais uma demão mas já não estão assim tão pequenos que seja aceitável eu mostrar a minha figura só de biquini à beira-mar. Quantas vezes me disse a minha mãe para eu depilar as axilas regularmente porque não era higiénico. Curioso, nunca vi o meu irmão a segurar numa gilete em algum ponto abaixo do pescoço.

E isto porquê? Porque nós, mulheres, somos mesmo muito parvas. Em vez de aceitarmos que todas temos formas de estar e gostos diferentes, acabamos por achar que tudo o que sai da norma é errado, vergonhoso. Não acontece só com os pêlos, acontece com (quase) tudo: peso, maquilhagem, cabelo branco. Os homens andam por aí como Deus os fez e eles querem e nós, não contentes connosco porque não cabemos no modelo que posters como o da Harper's Bazaar mostram, ainda perdemos tempo a olhar para o lado a ver se há mais alguém que não caiba, para não termos de perder tanto tempo a olhar para nós mesmos e, principalmente, para a sociedade que assim nos moldou. Dá muito trabalho moldar uma sociedade inteira a rejeitar o que é norma há tanto tempo, mais vale ir na corrente e não mexer muito.

Acontece que eu deposito a esperança da mudança nas próximas gerações, enquanto vou esperando mais de todas as outras. Deixem os nossos pêlos em paz.

Digo mais: entre a mulher e o pêlo ninguém mais meta a gilete, fáxabor.

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Carina Pereira

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