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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Sex | 17.07.15

Fados Do Fado de Marco Rodrigues

Carina Pereira
O dia 10 de Julho deste ano marcou uma nova norma ditada pela Federação Internacional da Indústria Discográfica, a partir da qual as novidades musicais passam a sair às sexta-feiras.Nesse âmbito, o mais recente álbum de Marco Rodrigues, Fados do Fado, foi editado pela Universal neste mesmo dia, o primeiro de muitas sextas-feiras recheadas de novidades.Nascido em Amarante, Marco Rodrigues mudou-se para Lisboa aos 15 anos, e se já antes tinha arrebatado um honroso segundo lugar na Grande Noite do Fado do Porto, foi ao ganhar o primeiro lugar na Grande Noite do Fado de Lisboa, em 1999, que o Fado encontrou permanentemente um lugar na sua vida. Percorrendo casas de Fado, participando em tertúlias, caminhando na soberba envolvência desta herança tão nossa, o fadista arrematou este nome para si próprio, e com direito.A Casa de Fado Café Luso foi a primeira morada da sua voz, e enquanto é presença assídua nos festivais de Fado - actuou no primeiro Caixa Ribeira este ano, e estará a 18 de Setembro em mais uma edição do Caixa Alfama - e em outros palcos do país e do estrangeiro, é na Adega Machado que o podemos ouvir todas as noites, de viola na mão e Fado na postura.Não será o seu nome, por ventura, tão conhecido como Camané, ou António Zambujo, mas será apenas por desatenção de quem ouve Fado ocasionalmente, porque o talento equipara-se, sem deixar lugar para dúvidas. Voz pujante, certa. Tom afinado, um controlo de voz fabuloso, e choradinhos deliciosos, são as principais marcas da sua interpretação. O talento natural - a voz bonita - ajuda, claro. Mas o Fado faz-se de muito mais do que isso.Fados do Fado é o quarto álbum do fadista, e uma afirmação da sua versatilidade e talento. Se até aqui nos tinha brindado com originais - nas sua maioria, porque os fados tradicionais fazem também a sua vénia em cada um dos álbuns anteriores - Marco Rodrigues achou que era altura de fazer uma homenagem. Uma homenagem aos homens do Fado, tantas vezes esquecidos e subestimados, tantas vezes colocados áquem dos holofotes, para dar lugar a uma crença tão comum quanto errada de que o Fado é um universo feminino. Amália criou um legado muito forte, uma voz como ainda não se tornou a ouvir, e por isso é difícil esbater a ideia de que a história do fado também se fez de homens.Neste disco entram nomes tão importantes para este legado como Max, Tony de Matos e Tristão da Silva, havendo ainda lugar a referências mais recentes: Camané, Carlos do Carmo e Jorge Fernando. Compositores, poetas, interpretes.Pode-se questionar a necessidade de gravar músicas que já foram ouvidas e interpretadas sobejamente, mas os argumentos que Marco Rodrigues nos apresenta são válidos: há canções a serem esquecidas, nomes que é preciso trazer de novo ao lugar de destaque a que pertencem. E, se estas razões não fossem já convincentes, basta ouvir os mesmos fados cantados por pessoas diferentes para saber que eles vivem do cunho pessoal que cada artista lhes dá. Neste caso, é uma lufada de ar fresco, por duas razões: há a melhoria na qualidade da gravação, que muitas vezes torna os temas mais prazeirosos de se ouvir, e há a inegável beleza da voz do fadista que, correndo sobre estes temas, nos dá sempre vontade de ouvir mais.Há temas tão conhecidos como A Rosinha dos Limões,- que foi o single de apresentação deste trabalho - Nem às Paredes Confesso, e Bairro Alto, e outros tão esquecidos como É Só Por Causa Dela, Guitarra, Guitarra e Noite. De realçar também Trigueirinha, composição de Jorge Fernando que Marco recorda na voz de quem lhe entregou o prémio da Grande Noite de Fado de Lisboa: Fernando Maurício, o pai do Fado Castiço.Mas existem excepções neste disco; gravado anteriormente por Marco Rodrigues no seu primeiro álbum, - Fados da Tristeza Alegre - e cantado originalmente por Amália Rodrigues, revisitamos Acho Inúteis As Palavras e, a termo de compração, surpreendemo-nos com as nuances alteradas desde esse primeiro disco, com o facto de o tema, repetido, ser ainda assim uma oferenda para o álbum. Rosa Lobato Faria também se infiltra aqui, mais uma excepção que prova a regra, e deu a sua poesia ao tema É Só Por Causa Dela, uma declaração de amor a Lisboa.Há músicas pesadas e tristes, há fados mais corriqueiros e de bater o pé, e há letras que contrariam a batida da melodia. O Fado é assim, histórias do povo, intenções escondidas, músicas de amor e desamor, com um final mais ou menos feliz.A produção musical esteve a cargo de Diogo Clemente, que foi quase um mestre dos sete instrumentos, tendo-se ocupado também da viola de Fado, da guitarra acústica e do baixo, acompanhado na guitarra Portuguesa por Ângelo Freire e, num tema cada um, Guilherme Banza e Luís Guerreiro, nomes bem conhecidos nestas andanças.Vale a pena ouvir tudo isto na voz de Marco Rodrigues; perder o tempo entre trémolos, na renovação do antigo, na descoberta do que ainda não conhecíamos, e chegar à conclusão que o único senão deste disco são as meras onze faixas, imensas já no seu valor interpretativo, mas que parecem sempre pouco por isso mesmo.Fados do Fado é um disco feito de homens, que merece um lugar em toda a gente.

Carina Pereira