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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Qui | 27.08.15

Desconstruindo || #1 David E Golias

Carina Pereira
Há sempre dois lados para cada história e, para cada lado, uma versão. É claro que a versão que fica é sempre uma de duas: a verdadeira, ou a contada tão bem que toda a gente acredita.Agarrando assim algumas fábulas e dando-lhes a volta, vale bem a pena pensar um pouco no lado menos conhecido, no vilão derrotado que nos ensinaram ser o mau da história, quando nem lhe ouvimos um testemunho.Golias era um gigante. À partida, e contando com o poder de deturpação que as pessoas possuem, se calhar Golias era só um tipo mais alto que o costume, avançado para a época, toda a gente sabe que naquele tempo alguém com mais de metro e meio era para sair no jornal. Era um fora-de-série a quem os outros putos na escola perguntavam como estava o tempo lá em cima, às risotas.Na volta, Golias cresceu sempre a comparar-se aos miúdos da sua idade, constantemente apontando com um bocado de carvão na madeira da cabana onde vivia os centímetros a mais que tinha ganho, pedindo todos os dias, ajoelhado no chão que lhe servia também de cama, para o reverso acontecer. Para, no dia seguinte e nos dias seguintes a esse, começar a decrescer. Pedia, caso isto não fosse possível, que mandassem a maldição de que padecia a outro menino da sua idade, para que juntos pudessem brincar, e informar os outros de como o tempo estava lá em cima. Mas não, isso não acontecia. Os anos corriam e com eles só traziam marcas mais altas na madeira lá de casa, e mais graçolas maliciosas e solidão.Até que um dia, estava Golias a pensar sozinho no alto dos seus tantos metros, e alguém lhe chega, dizendo que ele tinha sido recrutado para lutar contra os Israelitas e ia tornar-se o herói dos Filistinos. É claro que Golias nem sequer pesou os prós e contras; finalmente alguém o queria, finalmente ia fazer serviço nalgum lado! Ainda por cima, segundo lhe diziam, contra um Israelita que lhe cabia no bolso.Golias aprontou-se, mediu-se outra vez na ombreira da porta, como era seu costume, vestiu o que lhe deram - porra, aquela armadura era pesada - e lá saiu todo lampeiro para enfrentar quem lhe cabia em sorte.As coisas até pareciam bem direccionadas. Conquanto não quisesse matar ninguém, Golias tinha esperança de que aquela fosse finalmente a vez da sua glória. Talvez, quem sabe, da próxima que lhe perguntassem como estava o tempo lá em cima, quisessem mesmo saber a resposta.David era franzino, e parecia simpático. Golias, reflectindo que talvez houvesse forma de resolverem aquilo amigavelmente, lá o chamou uma e outra vez, mas David nem se aproximou. Devia ser tímido. Era uma pena porque, com a sua pequena altura, Golias estava certo que também David devia ter sido alvo de chacota na escola, concerteza que se dariam bem os dois, se ao menos David deixasse de ser tão desconfiado.Qual quê? Sem aviso prévio, enquanto Golias se compunha de um espirro que lhe atirou a lança que carregava para a frente, David arma-se em bully, saca de uma fisga que trazia bem escondida, e manda uma pedra direita à sua testa, tau. A pedra nem era grande, mas aquilo doeu. Já para não falar no grito surpreendido que Golias mal conseguiu disfarçar, a entoar por todo o recinto, o que foi embaraçoso.Golias ficou ressentido.Tinha antevisto uma possível amizade e o franzino fazia-lhe aquilo. Não fosse estar ainda incomodado com o espirro - porcaria das alergias de Primavera eram tramadas - Golias ter-lhe-ia dado um sermão acerca de como a violência não resolve nada. Mas, enfim, meio tonto com o escroque que o outro lhe mandara, o peso da armadura, e possivelmente porque nem tivera tempo de acabar o pequeno-alomoço de manhã, caiu desamparado no chão. Ainda levou a mão ao bolso para tirar um bocado de pano e limpar o nariz que estava sujo por causa do espirro, - não queria dar má impressão a David - mas antes de conseguir sequer mexer-se o outro não tem mais nada, pega de uma faca daquelas sem serra, e corta-lhe o pescoço, de um lado ao outro.A última coisa a passar pela cabeça de Golias, antes de perder a consciência para sempre, foi que Deus escreve direito por linhas tortas e, depois daqueles anos todos, tinha-lhe finalmente retirado alguns centímetros.

Carina Pereira