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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Qui | 03.09.15

Carta Aberta Aos Escritores

Carina Pereira
Estou sozinha, apeada do mundo. Ele gira e eu caminho, sem saber bem por onde vou. Os cruzamentos da minha vida são as escolhas que me aparecem no caminho, mas eu nem sei bem por onde ir, às vezes nem sequer sei onde quero chegar.O meu destino seria a felicidade, mas essa é um meio de transporte, não um porto para atracar. Ninguém chega à felicidade e monta ali pousio, não, porque a felicidade é tão frágil e oscilante como uma semente de dente-de-leão ao vento. A felicidade é para se ir encontrando, é ilusão pensar que é possível achá-la definitivamente. Há vislumbres, resquícios, mas não se a agarra com as mãos, embora seja possível alugar-lhe um quarto num cantinho do coração de quando em vez.Toda a gente sabe como o coração é um malandro; volta e meia  expulsa os inquilinos e nem nos pergunta se pode ser assim.Também não vale de nada andar em passinhos de lã, a ver se o coração se distrai. Quando a felicidade lá mora, de nada servem as ilusões mornas. Mais vale incendiar a casa e aquecermo-nos enquanto a lenha arde, por sim ou por não.Aos escritores devo as companhias no caminho, que me entendem sem me julgarem, e são silenciosas mas presentes. Devo todas as viagens que fiz não as fazendo, dentro de carruagens de comboios cheias de pessoas, alheias ao mundo que entre as páginas me acolhe; partilhamos o mesmo transporte e, no entanto, eu corro também por outras paragens, por outros mundos.Agradeço-lhes as vidas que pude viver sem ter que me desprender da minha, as que a mim se colaram como roupa molhada sobre o corpo, uma segunda pele, mesmo depois de lhes ter dito adeus ao virar da última página. As que substituíram até a minha, quando ela era pesada demais para a levar comigo. Se posso amar eternamente quantas vezes eu quiser? Posso; aliás, não tenho outra escolha. Se a felicidade é um caminho, é aqui que o calcorreio na certa.Os escritores não dão apenas tinta e papel, e o seu tempo, a quem os lê. Dão o mundo que habita dentro de si, as vidas que, por força da vida, também não podem viver. As palavras, aquecidas a sopro por entre as mãos em concha, embrulhadas especialmente para nós, porque há lá coisa mais capaz de afagar um coração senão os artigos e nomes, e adjectivos que são abraços e aconchego e aqueles braços que nos carregam para a cama quando adormecemos no sofá! Os neologismos! Oh, como estou grata pelas palavras novas que em mim se entranham, como se em vez de as conhecer pela primeira vez, as estivesse simplesmente a reaprender!Aos escritores agradeço o engano à solidão, não só do corpo, mas a da alma, aquela que sempre levamos connosco. Agradeço a pilha junto à mesinha-de-cabeceira, pois se o futuro não for risonho, pego num novo emprestado.Aos escritores dou o meu tempo em troca. Não, não dou: recebo. E nesse tempo, à minha espera, está a felicidade. É o caminho, e o destino, e às vezes é até triste.Não faz mal se não sei para onde vou; afinal, quem é que quer saber o fim antes do tempo?

Carina Pereira

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