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Contador D'Estórias

Um blog com estórias dentro.

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Seg | 24.08.15

A Maldição Das Estórias Inacabadas

Carina Pereira

Capítulo Um

Amsterdão - Brasília

O ruído repetitivo do telemóvel acorda-me do meu torpor. Sinto o corpo moído, de tantas horas estar enterrado no grande cadeirão de baloiço da sala, o único objecto de valor que me dei ao luxo de comprar para a casa. Estou aqui há demasiadas horas e o sol quase levanta. A vista é a mesma de sempre; embora já pouco repare na beleza dela, foi uma das razões que me levou a adquirir a habitação, há dois anos atrás. Aquele cadeirão, e a vista, e cada centímetro da casa, estão cheios das recordações que ora me assombram, ora me alumiam, dependendo do meu estado de espírito. Mas a paisagem em volta é sempre a mesma, constante no inconstante que rodeia.O telemóvel volta a tocar, zunindo enquanto se move lentamente pela mesa, impulsionado pela vibração, e eu vejo o nome a piscar no visor. Não me surpreende o nome que me fita, estava à espera dele. Releio-o antes de atender o telefone, sentindo o mesmo enlevo que me envolve quando penso nele, quando o sussurro para aquelas paredes, tão vazias de outra gente.Deslizo o dedo sobre o ecrã e encosto o vidro de encontro ao meu ouvido.- ZéDu?Mais ninguém me trata assim. Mais ninguém arrasta os meus dois nomes primeiros como se fossem um só, capitalizando o meio deste meu apelido, tomando-o como seu e seu apenas. É-o, claramente, porque mais ninguém me trata assim e, no entanto, di-lo como se só desta forma o meu nome, por instantes, lhe pertencesse por inteiro. Uma amarra feita de um neologismo que eu só aceitaria vindo dela.- Estava à espera que me ligasses.Ela sabe. É claro que sabe. Ela enche o silêncio com um suspiro e eu sinto-a mais perto.- Saiu hoje. Comprei-o. Acabei agora de o ler.Olho o relógio. Onde ela vive neste momento são duas da manhã. Ou, pelo menos, penso que sim. Por vezes ela viaja, mas raramente tenho forma de saber por onde anda, a não ser se lhe perguntasse. Nunca pergunto. Deixei de lhe perguntar ainda antes de ter começado.- Desculpa.É a primeira coisa que me lembro de lhe dizer. Talvez nem seja preciso, mas prefiro pedir perdão por excesso do que a perder para sempre por defeito.- Não tens de me pedir desculpa. Podemo-nos encontrar?Não. Claro que não. Absolutamente que não. Ainda tenho feridas a sararem, entreabertas como o coração que lhe deixei, caso ela quisesse algum dia lá entrar. Não regressar, pois ela jamais fizera aqui moradia.- Claro.É o que me sai, obviamente. As feridas nunca hão-de sarar, de qualquer forma.- Por onde andas?Rimo-nos, porque a pergunta é um eco. Formulámo-la ao mesmo tempo, o nosso paradeiro sempre uma incógnita.- Em Amsterdão. – respondo eu primeiro, mentindo, mas só por uma questão de quilómetros.Sinto que ela sorri do outro lado. Conhece-me melhor do que eu quero acreditar.- Eu estou em Lisboa.Afinal, estava mais perto do que julgava.- Eu vou aí ter. – digo-lhe.Tenho a certeza, pelo seu silêncio, que acena com a cabeça mas, lembrando que eu não a posso ver, embora adivinhe, responde-me em voz alta, uma voz sonolenta que se tenta manter de pé.Concentro-me melhor e ouço, agora que me desprendi da voz dela, um barulho indistinto, mas conhecido, ao fundo. Onde quer que ela esteja, naquele terminal de aeroporto, não é Lisboa, mas o bilhete de avião que ela certamente guarda no fundo da carteira, fundo o suficiente para não o perder, mas bem à mão para quando dele precisar, levá-la-á lá em breve. Tal como ela não lhe desfaço a mentira, aconchego-me na nossa insistência em fazer de conta que o outro não sabe.Eu acredito que, a certa altura, num rasgo do tempo que foi nosso, ela me amou. Ela faz por acreditar no mesmo. Nunca conseguiu. Foi por isso que contei a nossa história de amor que nunca foi. Porque, enquanto a contava, acreditava que talvez tivesse sido.Há teorias que têm como crença a existência de mundos paralelos. Quem sabe, num desses mundos, se existirem, eu seja um escritor a viver uma história de amor que aconteceu, e a escrever uma que nunca foi, em vez do inverso. Porque o inverso tem lugar já neste mundo.Trocamos os dois ainda banalidades, mas poucas, porque estamos enferrujados um do outro. A conversa faz barulho, como dobradiças a precisar de óleo. Suponho que para nós baste mais alguns minutos cara a cara para este ranger se desfazer, mas ainda faltam horas para isso acontecer. Por isso, ela desliga. É sempre ela que desliga. Eu aproximo-me mais da grande janela que ocupa, na verdade, toda a parede poente da sala, e olho o mar à minha frente, o céu de tons rosa escuro, quase escarlate.O peso no peito, um peso que é tão sufocante que me sente a vazio, já está tão entranhado em mim que acredito que sempre foi assim, que sempre lá esteve. Pensei que, com o tempo, acabaria por amenizar, por desaparecer, por me ser devolvido o que havia lá antes, embora nem eu saiba bem o que era que lá estava. Mas não. Ficou assim, para me lembrar que os terminais de aeroportos são locais perigosos, que as casas alugadas à beira-mar também e, principalmente, que deixar fugir o coração por entre as grades de osso que servem para o aprisionar é ainda o mais perigoso de tudo. O coração sobrevive ao contrário dos quetzais, essas aves que morrem quando se lhes rouba a liberdade. O coração quer-se bem aprisionado dentro do peito, porque a liberdade lhe sabe a solidão. A única forma de o deixar ir é encontrando outra prisão, outro peito que o queira acolher. Para o meu, é tarde demais. Agora, vagueia por aí, e não sabe o caminho de volta para casa.Sento-me ao computador e compro a viagem de regresso a Lisboa, para essa mesma tarde. Depois, começo a arrumar as poucas coisas que trouxe comigo há umas semanas atrás e deixo um recado a quem, uma vez por mês, me visita a casa e faz por ter a certeza que está tudo em ordem, até a saudade, essa tramada, me trazer até aqui de novo.Chama-se Juliane, uma brasileira feliz e alegre que de vez em quando me visita e me traz as suas receitas, para que eu me sinta mais perto de casa. Mal sabe ela que eu não tenho realmente raízes. Nunca lhe disse isto, é claro, a comida de Juliane é demasiado deliciosa para eu correr o risco de estragar a sua bondade com a minha honestidade.Juliane é bonita, doce, e quando fala parece cantar. Já me convidou para sair umas quantas vezes; rejeito sempre com uma graçola, por isso andamos aqui, neste limbo entre o não e o sim, um talvez que provavelmente se manterá até ela encontrar alguém digno do seu tempo.No entretanto, mantemo-nos os dois jovens nesta ilusão do “talvez um dia, quem sabe”.

Carina Pereira